Outras noites

A ideia que eu tenho, de crónicas, notícias e informações vindas do passado, é que o Porto foi sempre uma cidade sobre o tranquilo. Silenciosa. Salvo quando havia «bernardas patrióticas», isto é, motins e revoltas contra os governos, protestos e manifestações de toda a índole. Mas, em passando o tropel das horas e a balbúrdia das imprecações, tudo regressava ao sossego habitual. Até se conta que, por meados do séc. XIX, quando a primeira família – os Pestanas – foi habitar todo o ano na Foz, na cidade, onde o rugir do mar se ouvia perfeitamente, temiam que fossem engolidos pelas ondas. Desruidosa esta cidade, pois.

Por tal razão, como não ando dado à paz dos cemitérios, quando surgem os arraiais de Junho, musicais, bailadoiros e animados, recupero da inércia. Em Julho, animaram-se as margens do estuário do Douro com as sonoridades estridentes ou compassadas – conforme os ritmos – do Marés Vivas. Deve ter estremunhado as avis raras e espécies protegidas da Reserva Natural mas, ao menos, durante três dias, musicou-se arduamente. E, com a propagação favorável da névoa nocturna, do lado de cá até se ouviu o Sting, como se estivesse mesmo aqui ao pé. Depois veio a desolação. O silêncio opressivo, o desmanchar do Festival, o desfazer da feira. E da Festa. Uma tristeza.

Até que no sábado, 28, com o vento favorável do Norte e o sossego dos bairros, veio até nós o concerto esfuziante e jovem do Jamie Cullum, em Serralves. Exultei. E o ambiente, com o fundo sonoro pairando sobre os bosques e telhados de Lordelo, nem parecia o mesmo. Menos sorumbático e mais estimulante. Que pena não haver concertos, festivais, alegria e aplausos todas as semanas, para a cidade ser da gente e não das sombras. (Não há dúvida: estou a envelhecer pessimamente. Deve ser falta de vitamina D.)

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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