Por que razão?

A notícia veio de chofre, pelo Telejornal da manhã, à falsa fé. A magoar: «Morreu D. António, Bispo do Porto.» E deixou-nos perante a interrogação: como é possível? Expondo a nossa precariedade: «Sentamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos acaba.» (Joan Didion)

Sem se despedir, D. António Francisco partiu e assim ficámos carregados de espanto e de incerteza sobre o que valemos. (Não valemos nada – dizia meu pai, um homem sábio, significando que valemos pouco e tudo acaba.) Partiu, injustamente traído pelo seu coração, a ferramenta mais importante da passagem por esta cidade que, como me explicou, aprendera a amar.

Conhecíamo-nos dos encontros por aí, ao sabor do acaso: nos almoços do Rancho do Porto, nas aberturas anuais do meu Instituto, há pouco na Escola da Pasteleira. Ali confeccionavam os trajos de papel do cortejo de S. Bartolomeu. Disse-lhe que só em Portugal – onde continua a persistir alguma doçura de viver (ou de saber-viver) que nos distingue -, só neste país era possível um Bispo encorajar os voluntários da festa paganíssima do banho-santo. Riu-se e respondeu que teremos de fazer «uma interpretação inteligente destas coisas». Que a dedicação das pessoas e o seu entusiasmo deviam ser incentivados. Estava ali para isso e expressou-o num discurso tocante aos obreiros da festa.

Assim era D. António. Um homem simples, que mantinha o sotaque das suas origens durienses. Um erudito sem alardes. Um intelectual sem afectação. Um homem bom e disponível, sem populismos. Um humanista atento ao real e não só ao existencial. Que falta faz ao nosso Burgo! (Procuro entender o sem sentido da sua partida, mas falta-me a transcendência para encontrar a resposta. E não consigo perceber a razão por que «Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.». Jorge Luís Borges)

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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