Ser europeu

A antiga freguesia de S. João da Foz publicou o seu “Roteiro Literário”. E digo «antiga freguesia», mas apetecia-me dizer «paróquia», o que seria equívoco quanto à iniciativa da publicação. Digo, pois, «antiga», quer pela lonjura histórica, quer pelo facto de – portuense não dado aos minuetes da Corte – jamais aceitar a reunião / união e casamento contra-natura, na Invicta, em certos casos, de entidades com milénios de História.

Pois, agora que a Foz celebrou os autores que nela nasceram ou viveram, talvez seja altura de o Porto repensar a obra feita em matéria de homenagens e reconhecimento dos seus escritores, artistas, cientistas, políticos e demais vultos que se destacaram no Burgo e no País. E, mais do que repensar, fazer um acto de contrição pela ingratidão, omissão e desleixo que tem cometido.

Explicando: desde 19.11.2016, no n.º 20, da Rua Ernest Cresson, no Bairro de Montparnasse, por iniciativa da Câmara de Paris, foi descerrada uma placa, onde se lê: «Aqui viveu e trabalhou o Pintor Português Amadeo de Souza-Cardoso (1877-1918), um dos precursores da arte moderna». Sendo embora estrangeiros, os países cultos celebram assim os vultos maiores que também os prestigiam. Recordando-os. E, nesse aspecto, as cidades francesas são exemplares.

No Burgo – ai de nós, pecadores, ávidos de verniz -, em matéria de placas vamos mal. A da casa de António Nobre foi surripiada. As dos mestres das artes nacionais, Artur Loureiro e Silva Porto, no Bonjardim e na Ponte Nova, definham à míngua de atenção, em casas degradadas, e um dia destes vão-se. E, sobretudo, faltam consagrações assim, tão simples aos muitos (portuenses ou não) que aqui viveram e ajudaram a construir uma Pátria e uma cultura. Mais do que «melhor destino», teremos de fazer do Porto uma cidade europeia?

©helderpacheco2017

~ por Helder Pacheco em 2017-11-19.

 
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