Um verão na Foz

A Foz era para os tripeiros o lugar mágico onde a diferença se tornava real. E, em cidade de rio, a diferença era o mar. Ver o mar. Senti-lo. No cheiro, no sabor salgado. Mergulhar nas ondas e projectar a aventura de ir a nado até ao Gilreu – o rochedo sempre descoberto – e dormir lá (só garganta…).

A Foz era, pois, à parte. Outra coisa. Com vida e instituições próprias: Orfeão, Banda de Música, Teatro, Cinema, Clubes de ténis, futebol e natação. Grupos Dramáticos. Festas. E o seu comércio: farmácias, mercearias, cafés, livrarias, quiosques. E jornais. Desde “O Echo” e o “O Echo da Foz” até ao recente e saudoso “O Progresso da Foz”.

Folheando o semanário “O Echo”, de 5.8.1900, encontramos o retrato do tempo e do lugar. Nada parece perturbar certa doçura de viver numa pacatez virtuosa e provinciana. Como nesta “Crónica”: «Que deliciosas não são agora as manhãs na nossa encantadora Foz! De muito cedo principiam a descerrar-se as portas e janelas das lindas cazitas e dos esplendidos palacetes que se debruçam rendilhados, à beira mar. (…)» E o vício do jogo parecia resolvido: «Ora hão-de confessar que a extinção das roletas, deu à nossa querida Foz um ar de distinção que a afidalga, requintando-lhe a concorrencia.» Não faltava a poesia: «Tu de luto vestida, / E a natureza em festa esplendorosa! / Tem contrastes, assim, o mundo e a vida…» E, enquanto no Teatro Vasco da Gama subia à cena o drama “João José”, o jornal noticiava um “Furto”: «Os larápios foram a casa do sr. A. Tompson, subdito inglez, levando-lhe 4 galinhas e alguns frangos.»

Em 1900, o Porto elegeria os únicos deputados republicanos do Parlamento, extinguiria a epidemia da peste bubónica e atingiria a soma fantástica de 167 955 habitantes. Coisas de somenos para os veraneantes a banhos na Foz.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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