Valeu a pena

Nos anos de ver as mazelas da cidade, o nosso coração morria de desgosto. De amargura. De desconforto e pasmo, mas nunca desamor. Dos anos 80 até existe uma fotografia do Germano e eu, olhando Santana em ruínas, com as habitações escoradas para não caírem. O que fazer? interrogávamo-nos.

Para enfrentar a degradação de parte do Centro Histórico, que alastrava para a Baixa, depois da campanha a muitos títulos exemplar do CRUARB, surgiu a Sociedade de Reabilitação Urbana. Estávamos por alturas de 2010 e tive a honra de integrar (gratuitamente, porque o amesendado é tradição da Corte) o seu Conselho Consultivo. Ali se juntou um escol cívico: Artur Santos Silva, Valente de Oliveira, Braga da Cruz, Miguel Veiga, Arlindo Cunha, Novais Barbosa, Miguel Cadilhe, Germano Silva, Rui Quelhas, Rui Losa e outros. Ali se discutiu, divergentemente ou consensualmente, a cidade. Sem politiqueirices. A par, seria elaborado o Master Plan condutor das intervenções a realizar para salvar o Porto da implosão. Com a cidade identificada rua a rua, casa a casa. Feita a radiografia, avançaram os primeiros quarteirões-piloto a reabilitar: Carlos Alberto e Cardosas.

Com os erros, defeitos e virtudes das batalhas iniciais. E sobre eles choveram críticas, desprezos, más vontades. Mas avançaram e induziram uma avalancha de obra pública e privada que retirou a cidade da fossa séptica onde vegetava.

Fui há dias, com a Francisca, ver como estavam as coisas dos Mercadores a Santa Clara, Bainharia, Santana, Aldas, Penaventosa. Nada é como dantes: a reconstrução dá frutos, abandono e incúria cedem à qualidade. Dia a dia. E assaltaram-me as saudades daquele tempo premonitório em que o futuro da cidade era analisado e discutido ao centímetro. Sem outra intenção que não fosse restituir-lhe a dignidade.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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