DA PÁSCOA COM ATRASO

Relativamente ao Natal dizem que pode ser todos os dias e quando o homem quiser. Não é, porque só acontece em momento e época certos. Já a Páscoa poderiam fazê-la quando a Primavera salta por aí representando a Ressurreição. A alegria de renascer e dar sentido à esperança.

As folhas surgem nas árvores. Algumas, em dias soalheiros, floriram. A seiva reaviva a Natureza. É a lição da Páscoa: ressurgir, para além da nossa precariedade, redescobrindo o eterno retorno. E assim confundi a Ressurreição de Cristo, com a sagração da Primavera por motivos que passo a explicar.

A Páscoa portuense era temível, como se as calamidades do mundo estivessem para suceder. Minha avó até vestia luto rigoroso. E durante uma semana música só de enterro. Entrar nos Congregados era ver o desgosto colectivo que contagiava. Tudo em crepes roxos, tristeza a rodos e caras de defunto que metiam medo. E comecei então a desvirtuar a Páscoa no seu profundo sentido da vida.

O entusiasmo e a Paródia eram na Ribeira, em Sábado de Aleluia, com a queima do Judas. O estoirar dos morteiros e o desfazer do boneco que representava – para os católicos – o maior patife. Para nós personificava o vizinho armante, os jogadores dos clubes que ganhavam ao Porto e, sobretudo, o professor da 3.ª classe que, além de falta de sentido de humor nos dava cocas na cabeça. A queima do Judas desforrava a tristeza e o sorriso que faltavam na cidade pela Páscoa.

E depois, no almoço de domingo havia o sacrifício do cabrito assado em que a família enterrava o dente. Mas, suprema consolação, surgia o pão-de-ló. Até empurrar com um dedo. (Os leitores têm de compreender uma coisa: em família de burguesia masculina super-laica e feminina catolicíssima, a Páscoa, com excepção da mesa, só podia redundar em controvérsia.)

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
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