GRANDE COISA!

Sem pretender armar em esperto, manifesto a minha estupefacção. E a razão é simples. Pelo menos desde o séc. XIV, existiam em Lordelo, no Ouro, os mais importantes estaleiros navais do Burgo. Muitos navios dos Descobrimentos ali se forjaram, além de barcas pescaresas, caravelas latinas e naus, em actividade essencial ao reino. Nas «Taracenas» do Ouro «equipavam-se embarcações de alto bordo superior ao melhor que se aparelhava nos portos estrangeiros».

Neles construíram «dezassete naus e outras tantas galés que foram descercar Lisboa», em 1384, e o «grande poderio de naus» da conquista de Ceuta, parte dos navios do «desastre de Tânger», «naus, galés» e outras embarcações que conquistaram Alcácer-Ceguer e Arzila. No correr dos séculos foram-se adaptando às mudanças que influenciaram a construção naval. Até que, nos nossos dias, entraram em colapso. E esquecimento.

Se fôssemos um povo orgulhoso da História, honrando a Pátria e celebrando a dignidade do que ali se passou, veríamos aquele sítio como lugar sagrado. Mas, como a austeridade nos tornou rasteiros, em vez de um memorial à altura da saga desenvolvida, surgiu coisa à altura da indigência pós-moderna: a nascente, a antiga Fonte da Praia do Ouro foi promovida a padrão histórico. A poente, um painel de ferro assinala o «Estaleiro do Ouro» e contém uma explicação com a seguinte pérola: «Em 1395, D. João I doa aos marinheiros locais um terreno para construção de um orago a Santa Catarina…», etc. Como o orago é «o santo da invocação que dá nome a um templo», à transcrição («atualizada» segundo o O.A) faltam palavras. Entre os dois elementos, a marginal do Douro espraia-se num banco para contemplar a paisagem. Do estaleiro restam 20 ou 30 metros das travessas apodrecidas onde assentavam os navios. Grande coisa!

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
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