NA CANTAREIRA

Modo infalível de aprender o português sublime é ler Raul Brandão, mestre de como transformar a língua pátria em expressão e sentimento.

O Porto nunca teve um escritor à altura de invocar com génio a condição operária, mas encontrou em Raul Brandão o épico da gente da Foz, que viveu e morreu no mar. Nos seus dramas e canseiras.

Para dar sentido à relação entre Brandão e a Cantareira – chão da epopeia piscatória – e repor a verdade sobre o local de onde lhe brotaram as palavras imperecíveis, Joaquim Pinto da Silva, bairrista sempre do «progresso da Foz», publicou o livro “Cantareira, 61” sobre a casa onde o escritor se enterneceu com o quotidiano daquele lugar «a légoas do Porto».

É um livro de factos. Um estudo de História como Brandão gostaria: no interesse pelo homem real e por um ambiente de personagens e sítios, hábitos e vícios. E pormenores como o tanque comum ou as escadas ao pé da porta, que explicavam a narrativa e fixam o presente. No “Cantareira, 61” não distinguimos apenas evocações dos mais belos momentos da nossa literatura, reencontramos o espírito do lugar que as inspirou.

E, já que o Porto não quis ou não entendeu a obrigação de homenagear o proletariado industrial que fez dele uma cidade, por que não erguer, na Cantareira, o monumento consagrando os homens da faina que diariamente se entregavam ao ganha-pão de enfrentar o Atlântico? Mas não um memorial ridículo como alguns que por aí plantaram, digo uma escultura a sério. Um bronze da têmpera dos heróis desta saga, cujo destino era a pobreza e o esquecimento. E existe um, notável, de Henrique Moreira. É só ampliá-lo e teremos os nossos “Burgueses de Calais” postados no sítio certo: a Cantareira.

Que bela maneira de homenagear Raul Brandão e a sua gente! Com grandeza. De mesquinhez estamos fartos.

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
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