S. BENTO

Lembro-me de ir com meu avô Eduardo à Estação de S. Bento buscar carregamentos chegados do Douro, em cesto vindimo tapado por serapilheira cosida. Maravilhas: chouriços, salpicão, broa, pão de centeio, farinha de moinho, figos secos. Em tempo de Guerra, era verdadeiro maná.

Os cestos eram entregues num serviço na Rua da Madeira, onde choviam destinatários e carrejões que os levavam a casa dos clientes. À rua chamavam-lhe «das bananas», por haver dois ou três armazéns das ditas, além de tabernas e casas de pasto. A categoria do lugar era nenhuma.

Nele, o aspecto dos edifícios da estação eram o habitual e sem qualquer importância. De paredes brancas e grandes portões, de acesso ao público. Iguais, país fora e sem a magnificência do átrio e do edifício principal. Comparados com estes (e com a cobertura de ferro e vidro da gare), os armazéns da Rua da Madeira e do Loureiro passavam por apeadeiros. Se aquilo era metade da Estação Central do Porto, que se ufanava de cosmopolita e europeia, vou ali e venho já. E a falta de categoria chegou até à actualidade. O que não admira, pois esta cidade tem bizarrias assim: ao lado do mais chique aparece a banalidade.

De maneira que, vistos e ouvidos os ditos, comentários, pareceres, opiniões, críticas (azedas, que já andam por aí), sugestões e audições (tudo legítimo em cidade -pátria do livre arbítrio), por favor, vejam os interlocutores se se põem de acordo para acabarem com aquelas vergonhas dos antigos armazéns e do que lhes fica por cima do Túnel e façam de S. Bento um lugar que nos orgulhe. E que não seja só para mostrar os azulejos e pôr os japoneses de olhos em bico com o átrio. Porque o resto, para trás e para os lados, nem para o terceiro mundo serve. Obra nova e categoria, exigem-se. A Bem da Naçom a que chamamos Porto.

©helderpacheco2018

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
%d bloggers like this: