SENTADOS NA PRAÇA

Pertenço à geração que cresceu nos bancos da cidade. Não os dos depósitos e empréstimos, mas os de sentar.

Quando me tornei leitor compulsivo devorei quantos livros havia em casa ou emprestados, nos bancos do Passeio Alegre. Sempre me encantaram. As Farpas, Eça, Júlio Dinis e, em período estrangeirado, Katherine Mansfield, Amiel, Rilke, Apollinaire (recebido de Paris) e Manuel Bandeira, de ponta a ponta. Além de outros. A Foz excitava-me o intelecto e foi espécie de biblioteca ambulante. E fiz-me gente a namorar fina e romanticamente nos bancos das Escadas do Carolina (incómodos), no Carregal, no Palácio, no Campo Alegre (havia poucos mas bons). Isto no Burgo. Em Coimbra, foram muitas horas (vejo-as agora como o paraíso) contigo nos bancos do Botânico ou de Santa Cruz. Que tempos!

Mas, além de motivacionais para a cultura e o amor, os bancos eram cómodos. Ergonómicos avant la lettre. Tinham costas arredondadas e adaptavam-se perfeitamente aos traseiros. Ofereciam tardes perfeitas antes das novas correntes arquitectónicas terem inventado o suplício, em blocos de granito que nem dão vontade de sentar, quanto mais de usufruir.

E também desconfio que as modernas escolas do pensamento único são anti-sentar e anti-contemplar. Como na Praça (a nossa, a imortal). Nela, para absorver o ambiente, regalar o olhar e sentir a vivência daquele espaço mítico, onde param milhares de pessoas, existe a mais cruel indigência: um banco no passeio nascente, dois no poente. E basta, porque a estética minimalista é assim: quem quer sentar-se, sente-se no chão.

Que tristeza! Que falta de decoro! Que desaforo: no coração tripeiro é proibido sentarmo-nos. E por quanto tempo teremos de suportar a irracionalidade do desprezo pela qualificação do espaço público que os bancos representam?

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
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