VICTOR HUGO

A Câmara do Porto tem por critério dar prioridade a vultos da cidade para a atribuição de topónimos. E bem. O que não invalida personalidades de fora que justificam a distinção. E uma há que me persegue como indispensável: Victor Hugo, autor apreciado pelo proletariado portuense. Conheci antigos operários que, nas suas leituras, não dispensavam “Os Miseráveis”, fresco admirável sobre a miséria e a injustiça e referência dos humilhados e ofendidos de todo o mundo. Romântico empolgado, Hugo tornar-se-ia apoiante do republicanismo e envolver-se-ia em campanhas a favor destas novas ideias. Defendeu o fim da extrema pobreza das classes populares, combateu pela adopção do sufrágio universal e da educação para todos, pugnou pela abolição da pena de morte (influenciando Portugal nesse sentido) e advogou os «Estados Unidos da Europa».

Morreu em 22.5.1885 e, quando a notícia chegou ao Burgo, os sectores operários e republicanos manifestaram-se com grande sentimento. Severo Portela testemunharia: na Rotunda da Boavista foi levantada uma tribuna onde discursaram vários oradores (um deles seria Alves da Veiga, dirigente civil do 31 de Janeiro). Depois, um cortejo dirigiu-se para o Campo da Regeneração, onde o poeta Augusto Luso, de luto pesado, recitou, sob aplausos, o poema «Victor Hugo… morreu». À noite, no teatro Baquet, seria representado o drama “Os Miseráveis”.

Não admira esta afeição por um homem que escreveu «Sonho com a igualdade, a verdade profunda, / O amor que deseja, a esperança que resplandece, a fé que constrói / E o povo esclarecido mais do que castigado». Trouxe alento e iluminou o caminho à gente anónima, incluindo a do Porto. A cidade deve-lhe a homenagem numa das suas ruas. (Que diabo! Se Lisboa já o fez há muito, por que motivo havemos de ficar atrás?)

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 10/06/2018.

 
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