DO RENASCIMENTO

Adoptando uma frase de Lawrence Durrell, a ideia que mantemos do Porto é a da «perenidade das coisas»: património, herança e tradição, através de coincidências primordiais que se transformam em persistência da memória. E, nesses momentos, o Porto transforma-se em sedução.

Sedução que permanece no entardecer da Ribeira sob os Arcos; nas varandas floridas com begónias e sardinheiras colorindo, aqui e ali, as ruas de S. Nicolau e da Vitória de contrastes com a pedra granítica que os séculos amareleceram; na geometria da ponte da Arrábida, asa recortando-se nas neblinas mareiras que sobem da barra. Na intimidade envolvente da vilazinha, em redor do adro de Nevogilde, ou da matriz de S. João da Foz, encimada, no seu nicho beneditino, pelo Baptista padroeiro. Nas varandas do muro dos Bacalhoeiros; no homem-estátua, em Santa Catarina (a nova estética da pobreza); nos vultos que espreitam por detrás das cortinas rendadas, ou assomam, a tomar o fresco, às janelas de Miragaia e S. Francisco; no voo das gaivotas que pousam nos pináculos de S. João Novo, do Corpo Santo ou da Vitória. No perfil da Torre dos Clérigos (vista, quem desce 31 de Janeiro) no crepúsculo; no silêncio irreal do Passeio Alegre; no encanto rural no Beco de Carreiras; nas canseiras dos últimos pescadores da Cantareira…

Ah! Este Porto, imutável na sua substância essencial, sob a aparência da instabilidade e da inconstância, permanece. Resiste. E, para delícia do nosso olhar e alimento das nossas ilusões de que as cidades são eternas, renasce, transformado noutra realidade (ou na verdadeira realidade?).

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 04/07/2018.

 
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