POLÍTICA E BANHA DE COBRA

Passei pela Cadeia da Relação e vi um pano onde escreveram: «Nasci na Vitória, posso morrer na Vitória?» Isto assim, nem mais, nem menos. E disseram-me que dísticos semelhantes vão apelando à permanência dos habitantes nos seus locais de origem.

A centrifugação de moradores para fora dos habitats onde residem está a espalhar-se – de Lordelo à Foz, Ramalde, Santo Ildefonso, Bonfim. Não chegou a deportação de portuenses, nos anos 80 e 90, assistimos agora, quando a requalificação do Porto atravessa o seu melhor período, ao reaparecimento de doença antiga.

O congelamento das rendas conduziu à degradação urbana e ao declínio da cidade. O empobrecimento de proprietários de edifícios ou andares como fonte de rendimento, conduziu ao seu abandono. Agora a pressão sobre os habitantes para abandonarem os sítios onde vivem destina-se a nova perversão: o aproveitamento para fins turísticos, a venda ou arrendamento em condições leoninas.

Entusiasma-nos a renovação da cidade (não a oriental, onde o ímpeto renovador ainda não chegou). Mas, numa obra notável e esquecida, de 1996, Fernando Namora escrevia que nos nossos olhos «pode andar a euforia do renovo, a sedução do risco, o acerto com o tempo (…) o gosto de ir em diante agindo.» (“Estamos no Vento”)

Todavia, a «euforia do renovo» deveria ser estruturada não só pela engenharia, a arquitectura, o mercado e o lucro mas – sem negar a importância de tudo isto – «ir em diante, agindo» com competência. Substituindo as políticas de banha de cobra por legislação activa que garanta o direito à cidade pelos seus cidadãos.

©helderpacheco2018

~ por Helder Pacheco em 2018-07-04.

Uma resposta to “POLÍTICA E BANHA DE COBRA”

  1. […] Passei pela Cadeia da Relação e vi um pano onde escreveram: «Nasci na Vitória, posso morrer na Vitória?» Isto assim, nem mais, nem menos. E disseram-me que dísticos semelhantes vão apelando à permanência dos habitantes nos seus locais de origem. → […]

Os comentários estão fechados.

 
%d bloggers like this: