APAGOU-SE UMA ESTRELA

Diziam os antigos que quando morre um poeta se apaga uma estrela. Desaparece na noite. E não é Vénus a que os pescadores da Foz chamavam Aurora, porque essa, tal como no Príncipe de Lampedusa, lá está sempre, esperando por nós. É outra. Sem nome. Desconhecida e quanto maior o poeta maior a escuridão que deixa em seu redor.

O poeta da estrela que se apagou é Albano Martins a quem devemos uma miríade de versos escritos na claridade, sem rebuscamentos (apreciados por quem prefere o encobrimento à simplicidade). E devemos admiráveis traduções da poesia grega (a partir da original). Sobretudo a monumental “Antologia Grega Clássica” e as antologias helenísticas reunidas em “Do Mundo Grego, outro Sol”, pautadas pelo rigor e a fidelidade ao espírito dos autores. Sem fazer da tradução uma «traição».

Beirão, guardando a consonância com as raízes, plasmou-as em versos onde muitos cosmopolitas deviam aprender que o universal está ao nosso lado: «Herdámos uma casa. Para nela morar. Para olhar, de seus verdes terraços, o horizonte do mundo. Uma casa chamada futuro. Chamada esperança», escrevia o poeta. E dizia tudo.

Além do mais, o Porto deve a Albano Martins alguns dos mais belos poemas sobre ele escritos. Assim: «Uma cidade / pode ser o nome dum país, dum cais, um porto, um barco / de andorinhas e gaivotas / ancoradas / na areia.»

Não. Não sei como vão ser os dias e os anos que ainda tiver pela frente, sem a sua presença – constante, sincera e sem artifícios. Quarenta anos de amizade, companheirismo e cumplicidade é muito tempo. Deixa marcas e uma saudade que magoa.

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~ por Helder Pacheco em 06/07/2018.

 
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