A LELLO DAS PADARIAS

Nunca fui forte em contas. Mas observando o comércio que por aí dá cartas, pus-me a magicar num assunto intrigante. Em 20.3.1898, o «condutor de obras públicas» Manoel Botelho Pimentel apresentava à C.M.P., a descrição e os desenhos para a construção das instalações da “Padaria Bijou”, que o snr. João Marques Pereira pretendia edificar na Rua do Duque de Loulé.

A descrição é minuciosa: um salão de 24m x 15 e 7m de altura, seguido de 3 fornos de 4.4m, constituindo uma abóbada de tijolo, e casa de habitação para o pessoal. A primeira parte do edifício compõe-se de uma frente de cantaria, ferro e vidro. Essa superfície de vidro é destinada a uma iluminação suficiente ao salão. O tecto deste é estucado e a armação é toda de ferro, etc. A «memória», exaustiva, dá pormenores construtivos, dos fornos ao saneamento e às características do edifício.

Os interiores não sei. Nunca os vi. Dizem que, há anos, os fornos ainda existiam. A fachada, sim, é das mais belas do Porto. Obra fulgurante de bom gosto, ao estilo “beaux-arts”, com duas cariátides sobrepujando a porta e ladeando as grandes janelas com vitrais. Soberba. Magnífica. O que não compreendo é como este assombroso edifício não se transforma, na mais bela padaria da Europa. Na Lello e no Magestic das padarias. Sem igual. Onde param, portanto, os empreendedores, os visionários, os Barrias e os Belmiros de uma padaria assombrosa? Moral da história: para subir até às alturas que merece, muito tem que crescer (sobretudo em mentalidade) esta cidade que, em 1902, teve o arrojo de inaugurar um estabelecimento assim.

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 2018-10-28.

 
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