AINDA OS MEUS COMBOIOS

Mas eram outros. Da infância que nos marca, com doçura, ou nos amarfanha para sempre. A minha abarcou as duas, mas do lado mais doce ficaram os comboios. Para a praia.

Nessa altura, meu pai, num ataque de suburbanismo (e para aferroar meu avô, portuense empedernido, que jamais lhe perdoou o despautério) resolveu mudar-se para Gaia. Era quase Porto, na Rua do Pilar, com vista sobre o Burgo, da Ponte até ao Palácio.

A partir daí tornei-me praiano duplo. Andar de eléctrico e beber mazagrans no Pavilhão de Carreiros era ao Sábado, com meu avô. Praia a sério com sol, banho de mar, buracos na areia disfarçados com jornais e espreitar os casais atrás das dunas, era Miramar, durante a semana. Apanhávamos o «trama» em General Torres. Sempre à tabela, daqueles que abriam as portas para fora e lá íamos, mães e catraiada, enquanto os «chefes de família» mourejavam.

Miramar tinha um apeadeiro que parecia o Portugal dos Pequeninos. Um encanto e o mais bonito até Espinho. Pintado de cor-de-rosa, impecável, com empregado e bilheteira. Para chegar à praia, ia-se por ruas que pareciam as «City Beautiful» americanas, com as vivendas que lá havia. Na época, a costa, entre Francelos e a Granja, era incomparável. Hoje, em alguns sítios, transformou-se num pesadelo imobiliário.

(Passei há tempos no apeadeiro de Miramar. As paredes estavam grafitadas. O abandono era total. O arranjo e a qualidade converteram-se em sítio de terroristas do Daesh de cá, tão bandalhos como os outros.) Do comboio para Miramar resta-me a recordação da doçura daqueles dias de praia. Ficou alguma coisa.

©helderpacheco2018

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 28/10/2018.

Uma resposta to “AINDA OS MEUS COMBOIOS”

  1. […] Mas eram outros. Da infância que nos marca, com doçura, ou nos amarfanha para sempre. A minha abarcou as duas, mas do lado mais doce ficaram os comboios. Para a praia. → […]

Os comentários estão fechados.

 
%d bloggers like this: