FECHA TUDO?

Portuense dos antigos é ser anti-centralista e desconfiar do Terreiro do Paço (TP). Desprezar calaceiros e parasitas (sobretudo os altamente colocados). Ser conservador do que tem categoria e não do lixo.

E manter hábitos: o mesmo café, a mesma loja, cumprir horários e compromissos. Frequento determinado café (chama-se “cookies & coffee”, mas não podemos ser integralistas), compro revistas num dado quiosque, jogo no Euromilhões em loja certa, vou a uma farmácia desde sempre, etc.

Fui ao oculista do Bonjardim que me aviava há anos. Fechou: compraram a casa, deram-lhe não sei quanto e foi embora. Vai ser um hostel. Vou ter de trocar de óculos e ando com a receita no bolso há meses. Fui buscar a revista do costume ao quiosque da esquina do Moinho de Vento. Fechou: deram-lhe não sei quanto e foi embora. Terei de ir a outro sítio e não sei qual, porque os hábitos enraizam e custam a sair.

Que a cidade mude e o comércio se modernize, se isso significa progresso e qualidade, acho bem. Mas tenho assistido a demasiadas mortes das minhas lojas habituais: a Estácio, a Queijaria Serrana, a Filatélica de Cedofeita, a Lousada, o Fraga, a Óptica, o quiosque (nunca soube o nome) e outras. É demais. Ou as lojas antigas não souberam adaptar-se a uma realidade em mutação, ou esquemas financeiros poderosos e indiferentes ao carácter da cidade, estão, paulatinamente, a apropriar-se dela.

(Vou fazer um retiro espiritual para ver se entendo o que se passa. Mas desconfio de mais uma azelhice do T.P., em matéria de arrendamentos, direitos dos inquilinos, protecção do pequeno comércio, etc.)

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 28/10/2018.

 
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