NUM NADA

Em 1855, Camilo publicava o romance “Onde está a Felicidade?”, que, inicialmente, esteve para se chamar “Como é ser Feliz?”. Coelho Lousada, romântico puro respondeu-lhe: “Na Consciência”. Pobre ingénuo. Há tempos ouvi um fulano na TV afirmar que a felicidade era ter um cartão de crédito ilimitado (ao que alguém lhe respondeu: «idiota, se o cartão esvaziar dás um tiro na cabeça»).

Torga dizia que «A vida é feita de nadas». Nem mais. Eu, que não faço ioga mas atravesso um período muito «que se lixe», acerca do que não importa nem vale a pena, descobri que, afinal, a felicidade se resume a coisas simples e banais. Por exemplo, ver cair a tarde a tomar meia de leite numa casa de «Cookies & Coffee», onde me inspiro ouvindo boa música (dizem «easy listening») escolhida. Que momentos!

Ou ver o brilho – maior do que o da estrela da manhã – nos olhos dos netos ao anunciarem: «Passei a tudo, acabei o ano!» Ou lembrar aqueles beijos (clandestinos porque então eram proibidos) contigo na Ponte do Lago do Carregal. E a própria lembrança ainda sabe a mel… Ou ver, quando me preparava para apagar a T.V., o golo do Herrera no último minuto e sentirmo-nos campeões. Ou entrar no hospital com um coração caduco, desconjuntado («pifou», disse o médico) e sair de lá com ele a bater a compasso, com pilhas novas, pronto para todos os enamoramentos que a vida nos reserva.

Não. A felicidade nem está na consciência, nem no crédito, nem nos livros, nem sequer no abarrotar de conhecimento. Está ali ao dobrar da esquina, num momento inesperado. Num sorriso, numa palavra, num gesto amável. Num nada.

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 2018-10-28.

 
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