OS MEUS COMBOIOS

Como funcionário público, deslocava-me do Porto, um dia ou mais. E utilizava o comboio. Tinha de estar em Lisboa às segundas, às 9 h, e havia um «correio» que saía de Campanhã à meia-noite, com carruagens-cama individuais. Um sossego. Fresquinhos e barbeados, às 7 chegávamos à Capital.

Se me calhava o Douro delirava. Fiz a linha do Corgo, para Vila Real, Vidago, Vila Pouca e, a partir da Régua, as voltas e reviravoltas da paisagem eram a maravilha. E no Outono a absoluta beleza.

Cheguei ao Arco de Baúlhe pela linha do Tâmega. Deslumbramento completo. E as viagens ao Tua foram incontáveis. Ir ao céu e regressar era viajar de Espinho a Viseu pelo Vale do Vouga. A perfeição. Certa ocasião fui, num Julho tórrido, até Bragança. Sozinho na 1.ª classe, para sobreviver ao calor, abri as janelas todas e as cortinas esvoaçavam na tarde.

Conheci o paraíso e as realidades. Uma é que às sete da manhã (em S. Bento) havia um formigueiro de gente que ia trabalhar. A gente cansada das madrugadas, negando a ideia daquele energúmeno, segundo o qual «os portugueses eram só o vinho e gajas». Outra foi ver quem viajava na 2.ª classe: alunos das escolas, idosos que iam aos médicos, camponeses, mulheres das aldeias, caixeiros, compradores dos dias de feira. Os comboios eram um instrumento do viver desse país esquecido chamado interior.

E por isso considero criminoso o desinvestimento no C.º de Ferro. Os nossos impostos serviram para mascarar as falcatruas bancárias à sombra do Terreiro do Paço e a destruição do C.º de Ferro foi o colapso de um belo país. A morte de uma pátria de regiões.

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 28/10/2018.

 
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