NATAL

Como os ingleses continuam a ler jornais de papel, sou fiel ao Financial Times. No “House and Home”, Stephen Bayley, director do London Design Museum, escreveu sobre o que “Sobrevive do Natal”. E critica o facto de «o ano inteiro ser a ascensão ou a descensão desta orgia cega de consumo, desta cruel gavagem humana». Não de alimentos, mas de compras. Mostrando-se céptico quanto à manutenção das tradições natalícias cita Hobsbawm e diz que como a maioria delas foi inventada no séc. XIX, o Natal não foge a algumas perderem sentido no séc. XXI.

Andei por aí a procurá-lo. Dos milhões de luzes previstas, contei muitos descontos e ruas apagadas. Uma escuridão. Azar meu. Milhares havia mas de automóveis passeando na Baixa. Até o Pai Natal entrou em crise. Eclipsou-se. Vi passantes com embrulhos, mas não tantos quantos pensava.

Da cidade ainda habitável, descobri várias feiras – inesperadas, no Infante, na Batalha, no Marquês e noutros sítios – tradições reinventadas porque feiras são de gente. E a árvore grande, enorme (os dois milhões devem ter-se concentrado nela) valia a pena ficar o ano todo.

E de súbito, encontrei o Natal: sobre a porta da igreja de Santo Ildefonso desenharam, com néon, o presépio. E num condomínio, em Alfredo Keil, debaixo das cores brilhantes da árvore, construíram outro, à antiga, com figuras de barro. Depois disto, para não comer perú de hotel, vou arranjar um bascalhausito com pencas e ler: “Um Tempo para Manter o Silêncio”, de Patrick Leigh. É o que nos resta: o silêncio de certa nostalgia que teima em dizer-nos algo que começa a escapar da nossa vida.

©helderpacheco2018

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~ por Helder Pacheco em 2019-01-19.

 
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