Prístinas vozes

Vozes. Límpidas, vindas de antanho. Estridentes, veladas ou fortes como do cantor de ópera, mas sempre cristalinas. «Prístinas», lhes chamava Alfredo da Cunha, por serem do povo. Das funduras do tempo dos pregões ou dos bandos de rua anunciando as novidades.

Eram os cauteleiros (como o Manuel Bonifácio que não sendo o último, vai a caminho disso, e há dias o JN trouxe à colação como «Protagonista»). E os ardinas –intérpretes de árias tão melodiosas e refinadas, consoante o nome do jornal, que pareciam de Wagner ou de Verdi -, mais as peixeiras e as farrapeiras. E até o carteiro, que tocava à campaínha e se fazia sentir vozeando como «correio».

Desta humanidade ao nível do rés-do-chão resistem os cauteleiros e, uma vez por outra, em certos bairros, o homem da flauta pânica, amolador de tesouras, navalhas, facas e tudo o mais. Inclusive consertar varetas de guarda-chuvas. Mas até nisso a sociedade da Web Summit leva a melhor, pois com guarda-chuvas (e sóis) «made in china», quando se estragam, ficam nos passeios ou deitam-se no lixo.

Agora me lembro: já encontrei dezenas de vezes o Manuel Bonifácio, em Sampaio Bruno, seu poiso habitual. Ouvi-o apregoar a «sorte grande» dessa semana e – não sendo jogador – nunca lhe comprei uma cautela. Tenho de ajustar as contas com a História (que ele representa como expressão de uma época da cidade em vias de extinção) e comprar-lhe uma. Ao menos isso. Antes que esta tradição se acabe nas abas de um processo de mudança impetuosa que tem tanto a ver com a humanização do quotidiano como a flexibilidade da pedra na construção civil.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-01-19.

 
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