DO PROGRESSO

Como a cidade permanece viva, corre por aí notícia alarmante. Conversas, comentários na internet e não sei se nos jornais anunciaram o fim do Café Progresso. Diziam ser o mais antigo do Burgo, inaugurado em 1899 (o meu dedo mindinho, que guarda o não esquecido, diz-me que o mais antigo, não sei se ainda vive, será o Café Brasil).

Além de, durante décadas, ser o «café dos Professores» (da Politécnica e da Universidade), o Progresso era venerado pela qualidade do seu café de saco. Dizem – isso não sei – que terá sido dos primeiros a servir o expresso da La Cimbali (crismado «cimbalino».) Corre por aí é que o Progresso – recentemente renovado – vai fazer uma plástica onomástica, num ímpeto de modernismo, passando a chamar-se Cafeína Downtown. De Progresso faz-se Retrocesso. Para se renovar cosmopolitamente, o Porto, não precisa de se abastardar. Deve ser coerente: conciliar a tradição com a transformação. E os nomes antigos significam identidade e memória. Representam o espírito dos lugares e as heranças de gerações. Exaltemos tudo quanto qualificar e ajustar a cidade aos padrões do melhor. Mas um valor chamado tradição exige respeito. A modernidade não se adquire trepando pelas paredes. E ainda menos apagando do sentimento público as referências a um território de lembranças.

Trocar o nome Progresso por Cafeína Downtown é bom exemplo do provincianismo contemporâneo. O desrespeito pelo ser portuense. (A menos que a transação do negócio não o incluísse ou a transmissão do nome tenha sido negada pelo vendedor – o que às vezes acontece. Se assim for, retiro o que disse.)

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-02-15.