AINDA É

Numa parede do Burgo, li: «O PORTO JÁ ERA». Esta conjugação do verbo intrigou-me sobre o seu significado. Recuemos quinze, vinte anos. O que era então o Porto? Ruas desertas, casas abandonadas, dezenas ameaçando ruína, um comércio outrora brilhante, em colapso eminente. Lojas fechadas, letreiros de aluga-se ou passa-se. Um rio feito esgoto e moribundo (a lancha turística branca nunca desistiu). Os cais desertos. Famílias vivendo em condições subhumanas em zonas da Sé, Vitória ou Miragaia. Um Porto em crise. Cem mil habitantes a fugirem para melhores condições, em Gaia, Matosinhos, Gondomar, expulsos pela incapacidade do Burgo em fixá-los. A Baixa, à noite, entregue à solidão e ao crime. A resposta a este borrador de paredes é dada em carta de Philippe Beurel, agente cultural em Rennes (cidade modelar): «Nada como uma estadia no Porto (…) A cidade soube manter harmoniosamente o espírito urbano que torna a vida encantadora: uma sociabilidade densa mas com inúmeros espaços íntimos, uma diversidade significativa de tendas e lojas já desaparecidas das cidades francesas, um notável civismo e cortesia, uma forma de viver indiferente a qualquer procura de aprovação exterior. O Porto é uma paisagem aberta para a minha infância, onde nada foi alterado «o passado sorrindo, de cotovelos apoiados sobre os telhados», como diz esse belo verso de Valery Larbaud, que amava as cidades com amor inquieto». E muito mais. Do elogio persistente à paixão expressiva: «Deixo o Porto, pela força do silêncio, invadir-me o coração». O Porto não era. Continua a ser. Permanece. É a nossa cidade.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-03-10.