NÃO SOMOS CORCUNDAS

No livro “O Porto D’Outros Tempos”, escreveu Firmino Pereira: «O Rocio tinha engulhos quando lhe constava que a Praça Nova se impunha. E do Rei D. Luiz se conta que, em certa ocasião agitada chamara o Fontes [Pereira de Melo] e lhe dissera entre aterrado e medroso: – O Porto não está contente, o Porto mexe-se. O melhor é o ministério cair para evitar qualquer bernarda… Este ascendente do Porto e do seu correlativo tamanco sobre a capital luminosa e dominadora onde, depois dos peraltas e franças, mediavam os janotas (…) havia forçosamente de irritar a capital por se sentir diminuida no seu prestígio e na sua força.»

A capital (ou Terreiro do Paço) já não teme as bernardas, nem do Porto nem do país, que explora ao bel-prazer dos seus banqueiros, tecnocratas e funcionários. Mas há que os enfrentar e responder à letra.

A rejeição, pelo Tribunal de Contas, do projecto do Matadouro e seus objectivos de reequilíbrio da urbe e de afirmação de uma nova centralidade onde ela se torna urgente, não é apenas contabilidade, é uma ofensa. Que os especialistas do cifrão não concordem com as contas é um direito que lhes assiste. Mas dão-se ao luxo de se meterem naquilo para o que não têm competência: questionar as opções portuenses em matéria de desenvolvimento urbano.

Ao interrogarem «Se o Estado não lucraria mais em sediar o Museu da Indústria noutra zona da cidade, em vez de ser no polo do Matadouro», os do Poder (que se julga) Absoluto, ultrapassam, em visão e planeamento do futuro do Porto, tudo quanto o Centralismo até agora ousou. Não lhes reconhecemos tal direito.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-03-10.