GARRETTIANA

Não é que eu seja mais esperto que os outros. Limito-me a observar o que se passa e elaborar um pensamento fundamentado sobre a cidade. Estudando o que diz quem sabe.

Por isso, só queria ter tantas notas de 1000 Euros quantas as vezes que falei em livros, artigos, conferências, aulas da necessidade de tornar pública a Casa de Garrett, como centro interpretativo da sua época e da sua obra. Não é que a casa tivesse valor histórico profundo na vida do escritor. Ali nasceu, em 1799, e pouco a utilizou. A infância passou-a nas casas do Castelo, ou do Sardão, em Gaia, e a juventude na Quinta da Boavista. Mas por ali ter nascido o maior vulto da cultura portuguesa, enorme portuense, fiel ao Burgo que o tratou aos pontapés por causa de lhe ter chamado «grande aldeão», a casa da Rua do Calvário merece respeito.

Em 1864 (dez anos depois da sua morte, em 1854), a Câmara nela resolveu colocar uma lápida de homenagem. E em sessão de 28.12.1889, a vereação municipal decidiu adquirir o edifício «para ali se estabelecer uma biblioteca de literatura contemporânea de Garrett» (AHMP, Actas, A.PUB F.52). Há 130 anos! Honra seja feita ao Município actual que, finalmente, resolvera (pelo que li) dar seguimento àquela decisão.

Causando-me suspeitas tal incêndio, daqui, simples indígena da Vitória, exorto o Municípo a não ceder ao terrorismo urbano, adquirindo finalmente a Casa de Garrett e avance com o projecto que para ela previra. O ter ardido talvez permita a um arquitecto hábil reconstruir o seu interior com a modernidade que o patrono encarnou no seu e em todos os tempos em Portugal.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-06-10.