O DOURO, UMA OPORTUNIDADE

Parangonaram os jornais que um «autocarro anfíbio vai ligar Crestuma ao Cais de Gaia». Gosto de projectos que façam andar o mundo, farto dos que não atam nem desatam. A inovação é urgente e a modernidade não espera por nós. Vamos ver se este é mais um, ou se avança mesmo.

Uma frase do programa é a de que «O rio não é um obstáculo, é uma oportunidade.» Não é novidade: no passado já o rio tinha sido oportunidade. Nos anos quarenta, havia lanchas a motor de transporte de passageiros, que, desde Pé de Moura, Crestuma, Avintes, Oliveira do Douro traziam centenas de trabalhadores até à Ribeira do Porto. Uma, era a “Foz do Sousa”, outra a “Espinhaço”, mas o povo chamava-lhe «a badalhoca». Pontualíssimas, chegavam todas as 8 da manhã e as pessoas iam à vida.

Em 5 de Abril de 1950, um erro do piloto e o nevoeiro fizeram a “Foz do Sousa” embater no pontão da Quinta da Vinha e afundar-se, causando 16 mortos e 10 desaparecidos. O acidente provocou a maior emoção e levou à extinção de tão eficaz meio de transporte. Há anos um administrador da STCP falou-me no projecto de criar carreiras fluviais, com embarcações modernas, que evitassem (é ter visão) centenas de automóveis vindos de Gaia para o Porto. Além da comodidade, havendo na Ribeira transportes rápidos para o centro, teria talvez pernas para andar.

O Douro – salvo para os barcos turísticos – é oportunidade até agora esquecida e negligenciada por empreendedores com determinação à altura dos tempos que vivemos. E os desafios da mobilidade metropolitana não se resolvem com um autocarro anfíbio incluindo «tours».

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-06-10.