PORQUE NÃO SOMOS CORCUNDAS

Um leitor que não deixa passar nada do que escrevo, questionou-me por que razão dissera que «Não somos corcundas». Com tal afirmação não pretendia aludir ou ironizar com os cidadãos que ainda sofrem de cifose (maleita agora rara graças aos progressos correctivos da medicina).

Esclarecendo: cito uma carta, de 1885, de Joaquim Martins de Carvalho a Alberto Pimentel, onde diz que «o nome de “corcundas” foi adoptado pelos liberais, de 1820 a 1823, contra os absolutistas. Era sinónimo de “servil”. Na figura encurvada queriam designar a submissão e servilismo com que se sujeitavam ao poder dos reis». E Pimentel acrescenta: o epíteto «”corcunda” foi muito usado pelos liberais contra os Miguelistas, até 1828. Daí em diante usavam de preferência o nome de “burros”.»

E surgiram cantigas populares glosando a palavra. Tais como (a propósito da Constituição de 1822): «Um corcunda, dois corcundas / jogaram ao bofetão / Um queria, outro não queria / Liberal Constituição.» Ou: «Fora corcunda. / Corcundas vis, / Nosso congresso / Não quer servis.» (alusão aos membros duvidosos da Assembleia Constituinte).

O que queria dizer por não sermos corcundas era que o Terreiro do Paço (e seus anexos intelectuais e sociais) ainda enxameia de restos do absolutismo miguelista e, depois, salazarista. Os tais que tudo mandam e tudo podem. E, não se contentando em dar ordens ao resto do país, pretendem dizer aos portuenses como hão-de planificar o desenvolvimento da sua cidade. Em nome da nossa herança liberal teremos de lhes berrar: não somos corcundas – isto é, não dobramos a espinha.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-06-10.