REQUIEM

Como é possível numa cidade à escala humana, morrer alguém e não sabermos? Foi o caso do meu amigo Zé Ferrugem. Andava desconfiado de não o ver e fiquei inquieto. Há dias, disseram-me que morrera. Confirmei: era verdade.

Aos 85, Zé Ferrugem era um resistente dos anos da condição proletária das indústrias lordelenses. «O perfume do trabalho em Lordelo do Ouro desapareceu», disse-me, quando assistiu à inexorável desindustrialização. O Senhor José Teixeira Fernandes, sobrevivente dos tempos áureos de um dos maiores núcleos fabris da urbe, era um homem de honra. Orgulhava-se do seu passado de metalúrgico e dos seus camaradas dos estaleiros do Ouro. Escrevia, relatando os tempos de angústias e renúncias por que passara. E era poeta, com a dura lembrança das dificuldades que ele e a sua geração enfrentaram para singrar na vida, num forte sentimento de solidariedade. Sob a aparência do frágil ex-operário com a 4.ª classe, era um homem culto, possuindo uma visão alargada e esclarecida da sociedade e do mundo.

Há tempos ofereceu-me um conjunto de poemas, escritos à mão (a sua rede social era apenas o papel), um dos quais certeiro nos dias que correm. Com o título «Os Escravos da Fartura», dedicado aos «pais modernos, avós antigos e futuros velhos», diz: «Pega filho, gasta filho. / Pega filha, gasta filha./ Pega neta, gasta neta. / Pega neto, gasta neto: / abre os braços, leva tudo / e o abismo aqui tão perto!»

Que falta faz neste país gente como o Snr. Zé Ferrugem e que saudades eu sinto das suas histórias e da boa disposição de um cidadão que lutara toda a vida pelos seus ideais.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-06-10.