VIOLÊNCIA PÚBLICA

Anda por aí a violência doméstica. Sempre existiu. Recordo-me de ouvir minha avó e minha mãe comentarem que fulana e beltrana levavam coças monumentais dos maridos. A diferença é que agora os criminosos matam.

Mas a violência contra a mulher não era apenas pancada. Existiam outras formas de brutalidade: as profissões aviltantes. Carregadoras de areia na Praia das Felgueiras que a escavavam, à pá, e carregavam em cestas para as zorras da Carris. Arrobas de areia molhada, oito horas seguidas. Cascalheiras, que partiam granito na Areosa, à marretada, e transportavam-na para camionetas. Recolectoras das escórias do carvão, no Castelo do Queijo, usando as mãos para buscarem o que rendia para queimar nos fogões.

E as descarregadoras de sal dos barcos no Douro, transportando-o à cabeça, sobre pranchas, para terra, pés descalços, salgados pelo tempo. Ou as descarregadoras de carvão. Algumas caíam das pranchas e afogavam-se. E as carregadoras de paralelepípedos, levando gigos de 25 quilos, das camionetas para bordo dos navios no Cais da Estiva. Mas a vida destas mulheres – centenas, anónimas, muitas vezes grávidas, ganhando miseravelmente – atingia o clímax nas carquejeiras. Subindo, Verão ou Inverno, a Calçada da Corticeira (proibida a animais mas consentida a sub-humanos para ganharem o pão). Subir a Corticeira com 50, 60 kg de molhos de carqueja à cabeça. E levá-los até aos clientes.

E revolta-me a indiferença de uma cidade – do liberalismo e da democracia – que consentia tudo isto e não faz um gesto de reconhecimento pela dignidade e a força moral destas mulheres.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-06-10.