A Volta voltou

Estou a rever-me com meu pai, sentado na bancada do Lima, à espera da Volta. Ele, com antiga paixão, só via as equipas do Académico. Particularmente na época do Ribeiro da Silva, que elegera como ídolo. (Até fez luto interior quando se soube da sua morte.)

Eu só tinha olhos para a equipa do FCP, sobretudo na era do nosso ídolo, Fernando Jorge Moreira. Até inventamos, quando ele venceu a competição, uma cantiga poetada a trouxe-mouxe: «Fernando Jorge Moreira / Campeão Nacional / Ganhou pela vez primeira / a Volta a Portugal.» Em matéria de ciclismo, como o Lima era a única pista, ali vivemos aventuras, entusiasmos (e desgostos, quando os eleitos ficavam para trás). Chegadas do Lisboa-Porto, corridas caseiras e especialmente os terminus das Voltas a Portugal. E, em matéria de loucura, as “24 Horas à Americana”. Nelas havia entusiastas que abancavam no Estádio, farnelavam com os amigos e dormiam nos degraus da bancada, enquanto os ciclistas pedalavam, dia e noite. Meu pai tentou levar-me uma vez para esses rituais. Recusei: dormir, só no fofo da cama. Que fosse ele. E foi.

Esta evocação nostálgica vem a propósito de um acontecimento que, para mim, fervoroso adepto do ciclismo, constituía uma ofensa: há já não sei quantos anos, a Volta nem terminava nem sequer passava pelo Porto. Finalmente tal bruxedo ou indiferença terminou. E teremos então a maior prova desportiva popular a regressar ao Burgo. Ainda bem, porque tal acontecimento também faz parte do Renascimento Urbano da cidade.

Viva, pois, a Volta a Portugal e que saudades sentia de a ver dentro dos muros da Naçom.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
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