Ai o S. João

A emoção sãojoaneira que corre no ADN tripeiro é, com certeza, ressonância dos tempos milenares em que éramos todos bárbaros. Agora são menos.

Afinal, apesar das Web Summits, Tedx, iPads e iPhones continuamos adoradores do sol – e seu representante, o fogo – das estrelas, plantas e água. (Só falta a pedra, mas isso é com o Senhor da dita.) Milhares de anos de civilização – os mais aproveitáveis foram os últimos 60 ou 70 – e milhares de Decretos, Portarias, Despachos, Editais, Regulamentos não conseguiram apagar a euforia de Junho que nos consome.

Por dentro, em sardinhadas, cabritadas e farturas (e, já agora, Bolo de S. João) e por fora, em sentimento de partilha, comunhão fraterna, bailação, guerras de alho. Para meu irmão o martelo de plástico foi invenção bárbara, o que confirma tudo o atrás referido que nos atiça o sangue e estimula a alma.

Porém, os excessos pagãos que o iluminismo, o liberalismo, a revolução industrial e a digital não conseguiram extirpar do ser portuense, têm um vigilante contra os excessos orgíacos: S. João. Por causa dele – que, ao contrário doutros santos, comemora o nascimento e não a morte – essa história do solstício de Verão e seus atavios, foram esquecidos. E para fazer esquecer ainda mais os paganismos, fizeram do S. João casamenteiro e promotor de amores.

Deve ser competente, já que um amigo meu, antigo e prestigiado obstetra do Hospital de Stº. António, me confidenciou que, noutros tempos, nove meses depois da noite são-joanina, o número de nascimentos aumentava. (Eros andava por aí ajudando o Santo Percursor a justificar a sua fama.)

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
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