AINDA OS DUQUES

A propósito da minha crónica “No Bairro dos Duques”, recebi o SMS (isto é modernidade!) de um leitor. Crítico, ácido e humorístico – como convém para enfrentar o mundo moderno. Diz assim: «Que os mouros aos atropelos [refere os investidores lisboetas] nos tratem com a táctica do bota-abaixo, revolta. Que os da casa se deixem arrasar e arrasem… juntemo-nos e clamemos justiça. Mas é melhor tirar-lhe a venda. A fé move montanhas. O dinheiro revolve os corações.»

O Bairro dos Duques foi a maneira que inventei para designar os notáveis quarteirões desenhados segundo a chamada «pata de ganso», nos finais de oitocentos, pelo eng.º camarário João Carlos Almeida Machado (muito antes da Europa o fazer). Tempos em que os investidores portuenses (como Ferreira Cardoso) investiam na cidade. Pelos liberais, os nomes dados foram heróis do Cerco ou beneméritos: Visconde de Bóbeda, Duques de Palmela, de Saldanha e da Terceira, Joaquim António de Aguiar, Conde de Ferreira, etc. Ruas largas, arborizadas, rectilíneas, construídas com a melhor arquitectura da cidade e do país. Fin-de-siècle.

Em tempos idos – anos 70 a 90 e tais – a barbárie passou por aqueles sítios substituindo moradias admiráveis por rebotalho. Com algumas, poucas, excepções a categoria deu lugar à indigência. Além do mais, desarvorararam ruas magníficas. Mas ficou muito.

Desde há anos verificava-se nova atitude: a requalificação de prédios em lugar da sua demolição. Este SMS alarmou-me. Tenho de lá ir vigiar o que se passa. O Templo – a que chamamos Porto – tem de ser defendido pelos crentes no futuro da urbe.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
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