Da persistência da Cidade

No Auto da Barca do Inferno, diz o Diabo: «Põe bandeira, que é festa!» E eu confesso: gosto de festas. São o sal do país. A vacina contra a indiferença. Comunidade sem sentido da festa, morreu. A maioria por falta de apoios ou desinteresse paroquial (nem todos entendem que, depois do Vaticano II, a religiosidade popular é, para os crentes, componente da fé e expectativa de esperança).

Como conciliar o Estado Laico, com as festas religiosas? Respondo: César que apoie a componente profana e facilite as burocracias, a Igreja que faça a sua parte. E que se entendam, numa democracia de liberdade de crença, culto e expressão.

O Porto, pobre mas solidário (finais do séc. XIX) contava mais de cem festas. Com arraial ou romaria. Sobrevive uma dúzia. Algumas impantes, outras nas ruas da amargura, conforme os sítios e a sua força anímica. Mas contribuem para a cidade ser mais habitável.

As festas são o barómetro da fraternidde, transcendente ao rame-rame diário. Foi, por isso, com júbilo, que assisti, este ano, à continuidade da antiga Festa de S. Telmo ou dos Navegantes. Como dantes o S. Pedro de Miragaia, atravessou o Douro, em cortejo fluvial (ou procissão) vindo da Afurada até Massarelos. Recordo-me, há anos, de ver, no Largo do Corpo Santo, um tapete de flores. Se continua é um milagre.

Independentemente da ciência e da tecnologia de que a cidade deve ser farol, e para além dos eventos nacionais ou internacionais, estas festas corporizam o sentir e o resistir do povo do Porto. Viva, pois, o Corpo Santo (dito S. Telmo, ou vice-versa). Nele, a cidade persiste.

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
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