Ironias

A vida prega-nos partidas. Um regalo ou uma desilusão. Já aqui o disse: no Renascimento da cidade é essencial o regresso ao rio que deu ser à urbe portuária. Quer dizer: habitar as suas margens. Da Foz ao Freixo, a marginal foi muito construída, designadamente entre os Guindais e a Corticeira, de Monchique ao Cais das Pedras, do Bicalho ao Ouro. Sobreveio o abandono só agora transformado em algo coerente, com arquitectura de qualidade e não remendos.

Mas nestas coisas há ironias e na cidade as incongruências. Por exemplo: a “Sábado” (23.5.19) dedicou uma edição à escolha das melhoras ruas do Porto e Lisboa. E nomeou cinco especialistas, da arquitectura ao imobiliário, que fizeram as escolhas. Surpresa! Com vista para o rio, a vencedora foi a Rua do Ouro «por agregar um conjunto de factores que a tornam mais competitiva»: a meio caminho entre a Ribeira e a Foz, versatilidade dos acessos, proximidade de Faculdades, recantos românticos, etc.

Mas como no Porto tem de haver providências cautelares, campanhas, burocracias, etc., na Rua do Ouro há quem prefira a sedução metafísica de calhaus abandonados. Por isso, a seguir à Ponte da Arrábida encontra-se embargada a construção de um imóvel que ajudaria a tornar aquele lugar desolado (e inseguro – nota negativa da referida escolha) em cidade com gente dentro.

É esta espiritualidade que não entendo. Mas a culpa é minha, por preferir casas habitadas em lugar de uma pedreira, que só não desapareceu porque a regularização da barra, iniciada no séc. XVIII, que lá se abastecia, não avançou. Se calhar, com alguma providência cautelar.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
%d bloggers like this: