Vamos à Malha

Via-os, no Largo do Ouro e na Corujeira, nos sábados à tarde. Os jogadores do jogo de ar-livre mais popular: a malha. Confrontavam-se e havia campeonatos entre bairros. Jogava-se por toda a cidade.

Depois, o Burgo despovoou-se, muitas comunidades esboroaram-se para os subúrbios e, no Ouro, o terreno onde se jogava foi «requalificado» para jardim de ver e não de usar. E a tradição da alha desapareceu.

Não esqueço o que presenciei no sul de França, onde é desporto nacional: cidades e vilas, de Nice a Antibes, de S. Raphael a Saint Tropez ou Cannes, selectas ou provincianas, possuem um espaço público destinado à petanca, jogada pela população. E, supresa! Descobri, nas proximidades da Câmara de Paris, um local utilizado para o efeito.

Um dos nossos defeitos é querer ser cosmopolita e jogar a malha é, por isso, pouco fino e mania de povo básico. Por isso, neste momento-chave do Renascimento Urbano da cidade, apelo ao Ex.mo Município para que, em sítios ajardinados, no Parque Oriental, na Corujeira, crie espaços para que o que sobrevive do espírito do povo não normalizado, possa novamente jogar a malha.

Há quem esqueça (ou não saiba) que o desafio que enfrentamos é a conciliação das tradições com a inovação e o progresso. Sem isso, as cidades valem pouco. (Esta crónica foi-me suscitada por uma notícia inserida no “Campaniço”, jornal de Castro Verde. Nele, lia-se que a Câmara local procedera à execução de um campo direccionado para o jogo da malha – 12 metros de comprimento e pavimentado em «fibro». Objectivo: «promoção desta modalidade tradicional». Aprendamos a lição.)

©helderpacheco2019

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~ por Helder Pacheco em 2019-08-02.

 
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