HÉLDER PACHECO: “NÃO ACHO QUE HAJA TURISMO A MAIS… HÁ É PORTO A MENOS!”

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O “Etc e Tal jornal” inicia, nesta edição, uma série de entrevistas – a publicar regularmente, e merecedoras de destaque manchetado, com personalidades que muito deram e dão à cidade do Porto, ou seja, que fazem parte integrante da sua história, quanto mais não seja pelo amor e dedicação demonstrada a estudá-la, a defendê-la e a relevá-la.

Hélder Pacheco é o nosso convidado. Não é a primeira vez que, na vida deste jornal tal acontece, e acontecerá sempre que a cidade “pule a avance” e necessários sejam alertas para determinados desvios, como para factos que a História não apaga e devam ser, no mínimo, respeitados…

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Hélder Pacheco, Grande-Oficial da ordem do Mérito, professor, escritor, historiador, tripeiro da freguesia da Vitória, republicano e, entre outras coisas mais. E do mais a destacar, destaca-se o recente lançamento de mais uma obra. Um livro intitulado: “Porto: Da Cidade”.

Numa extensa, mas aliciante, conversa, que a seguir publicamos, falámos com o escritor, mas também com o professor e com o tripeiro. Falamos sobre o Porto… ao pormenor. O livro acompanha-nos, mas a cidade envolve-nos numa apaixonante, por pertinente que é, troca de ideias. Troca de ideias às quais, o país e o mundo não escapam. Para ler com calma, atenção e descontração…

“Porto: Da Cidade”. Há um outro Porto?

“A ideia não é bem separar «Portos», ou dar a entender que há mais que um Porto. É evidente que há muitos «Portos». A minha tese de há trinta anos, que está expressa no meu primeiro livro, é que não há um Porto, mas quinze «Portos», que são as quinze freguesias da cidade. Podia responder de imediato que, de facto, há mais que um Porto. Há um Porto claramente oriental, e um Porto claramente ocidental. Desde sempre o Porto oriental tem sido muito excluído em relação ao ocidental, por uma razão muito simples: o ocidental tem as praias, tem a Foz, e o oriental tinha fábricas e pobreza. Portanto, houve sempre um forte preconceito em relação ao Porto oriental.

Relativamente ao título do livro, um amigo meu achava que se devia ter um título em latim: a civitate – Porto Civitate, porque era muito mais envolvente que dizer só «Cidade», mas achei que era muito snobe por o nome em latim e, assim, resolvi chamar «Cidade», porque de facto é um mergulhar na cidade, dividido em três ou quatro áreas específicas.

A primeira é demonstrar o orgulho de ser portuense, através de vários episódios da história do país e da cidade. O meu orgulho em ser portuense baseia-se em factos concretos, um deles é a permanente insatisfação em relação ao Terreiro do Paço. Não é em relação a Lisboa e ao povo de Lisboa…

“O POVO DE LISBOA LEVA TANTO NO CORPO COMO O DO PORTO”

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..há pessoas que confundem um pouco essa “diferença” entre Lisboa e o povo de Lisboa.

“O povo de Lisboa leva tanto no corpo como o do Porto. É vítima das mesmas injustiças e é vítima dos mesmos gangsters financeiros que exploram o país. Nada tenho contra o povo de Lisboa! Tenho é todas as razões de queixa em relação ao Terreiro do Paço. Sempre foi – e demonstro isso através de documentos – historicamente um poderoso travão ao desenvolvimento do Porto, sobretudo em matéria de investimentos públicos.

Por exemplo, ainda agora com o Metro. As pessoas andam muito contentes porque vão começar – vamos ver! – as obras das duas novas linhas do Metro do Porto, mas a grande Linha do Metro, essa, ficou para as calendas. A grande linha do Metro do Porto era que deveria vir de Matosinhos, pelo Campo Alegre, até S. Bento. Servia duas universidades; cinco ou seis bairros sociais…”

e a Casa de Serralves.

“Exatamente! Por exemplo: o novo Metro de Copenhaga – cidade com 600 mil habitantes -, que é o redesenho do antigo, é construído segundo o conceito que nenhum habitante ficará a mais de 650 metros de uma estação de Metro, e a maioria ficará a menos. Portanto, ter uma estação numa área de quinhentos metros é um avanço espetacular, para que muita gente não precise de andar de carro. “

“A GRANDE LINHA DO METRO DO PORTO (A PASSAR PELO CAMPO ALEGRE) FICOU PARA AS CALENDAS”

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E nós, aqui, em Lordelo do Ouro, a cerca de dois quilómetros de uma Estação de Metro?!

“A mais próxima estação de Metro do local em que nos encontramos, é a da Casa da Música. A distância entre a Casa da Música e a Foz – que é a zona ocidental do Porto e, aparentemente, a zona privilegiada – é completamente incongruente.

A grande linha, a vir de Matosinhos, por Diogo Botelho, Campo Alegre, etc , essa não é construída. Vai, isso sim, ser construída uma linhita de S. Bento à Casa da Música. A de Vila d’Este, essa, na verdade, é necessária e útil!

Mas, isto tudo vem a propósito do facto de que eu não tenho dúvidas que o investimento na capital tem sido, sistematicamente, muito maior ao que é feito no Porto.”

“O REFERENDO SOBRE A REGIONALIZAÇÃO FOI UM «BREXIT» À MODA DE PORTUGAL”

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É a favor da Regionalização? Se é, é a favor da Regionalização nos termos da que já foi votada, à qual os portugueses disseram “não”? Ou, que tipo de Regionalização defende?

“O referendo sobre a regionalização foi um Brexit! Os portugueses foram enganados como os ingleses o foram com o Brexit. Brexit que mais não foi que uma campanha de aldrabões. Quem votou no Brexit foram pessoas oriundas de localidades do norte de Inglaterra e as que mais dependiam da União Europeia. Conheci aldeias, que sobreviviam das minas de carvão, e que estavam a cem por cento no desemprego. Dizem-me que algumas dessas aldeias nunca recuperaram, ou seja, têm sempre vivido de subsídios etc, etc. Portanto o Brexit foi uma aldrabice, e o referendo sobre a Regionalização foi igual, mas à moda de Portugal.

Eu já me contentava com uma honesta e rigorosa descentralização. Não era preciso, para já, avançar para governos regionais, tipo da Madeira ou dos Açores. O que era preciso era avançar com uma forte descentralização, quer para as comissões de coordenação das regiões, quer para as câmaras.

Mas, não é avançar com uma descentralização sem dinheiro! O Terreiro do Paço – que é superinteligente a utilizar os recursos do país em seu benefício – ou seja, em benefício da capital do império -, não se importaria de transferir para as autarquias muitas responsabilidades desde que não transferisse dinheiro. Ora, isso seria inaceitável! A transferência de competências paras as regiões tem de ser acompanhada pela transferência de verbas.”

“BASTA O MINISTÉRIO PÚBLICO «AGITAR BEM» O QUE SE PASSOU NAS ÚLTIMAS DUAS DÉCADAS PARA VIR À SUPERFÍCIE TUDO O QUE O TERREIRO DO PAÇO ESCONDE!”

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Mas, já houve deslocalização de ministérios…

“…  isso foi tudo folclore, no mau sentido da palavra. Nunca houve vontade política séria de descentralizar. Há demasiados interesses obscuros na capital. Uma forte descentralização iria afetar os interesses de muitos desses lóbis que, agora, basta a polícia, os tribunais e o Ministério Público agitarem bem o que se passou nas duas últimas décadas, para vir à superfície tudo aquilo que o Terreiro do Paço esconde”.

Não sei quantas gerações políticas, ou de políticos, mantiveram Lisboa como a tal “capital do império”?!

“Mas é um império fictício, porque o país perdeu o império com o 25 de abril. Ela só se manteve como império para certos lóbis de Lisboa que precisavam de manter o seu custo e nível de vida”.

Mas, o Porto, mesmo assim, desenvolveu-se.

“O Porto não ficou parado, mas há muitas coisas que poderiam, e podem, ser feitas. Por exemplo: uma nova ponte pedonal; extensões do Metro que cobrissem, de facto, a cidade a sério… O que se passa no Hospital de S. João, e no Joãozinho, é um mau exemplo de dificuldades de investimento.

Quero dizer: há obras e instituições que o Porto poderia acolher e não acolheu. O que se passou com o Infarmed é uma monumental injustificação…

“O PORTO SEMPRE FOI UMA CIDADE CLARAMENTE DESPORTIVA. SEMPRE FOI! DEIXOU DE SER!”

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O Porto não passou demasiado tempo a perder-se (como muitos salientam e criticam) com corridas de aviões e automóveis?

“Estudando a história do Porto do século XX – e eu tenho estudado bastante, tanto a do século XX como a do XIX, e a transição da Monarquia para a República que é muito rica. Repare que toda a Baixa da cidade nasce nessa transição, e isto contra a corrente do jogo, porque o país estava com seríssimos problemas, incluindo a intervenção na I Guerra Mundial. Mas a Baixa fez-se! -, acontece que há algumas tradições desportivas enraizadas no Porto. O Porto é uma cidade, claramente, futeboleira; é uma cidade claramente desportiva, sempre foi, só que… deixou de ser!

No campeonato de hóquei em campo chegavam a competir dez equipas. Neste momento há uma ou duas. Não há um campeonato de voleibol no Porto. Havia mais de meia dúzia de equipas a praticarem râguebi e existia um campeonato da modalidade. Neste momento nada há! Aliás, não se fala em râguebi no Porto. Portanto, o Porto, que era uma cidade muito desportiva, perdeu essa categoria.

Se não fosse o Futebol Clube do Porto, por um lado, e, por outro, o Boavista Futebol Clube – uma vez que, infelizmente, o Sport Comércio e Salgueiros desapareceu -, o Porto era um deserto desportivo.

Considero também uma verdadeira tragédia social aquilo que aconteceu, recentemente, com o Progresso, que entregou as chaves, e acabou! Os Passarinhos da Ribeira acabaram, o Ribeirenses acabou, etc, etc, etc. Há dezenas de coletividades que acabaram, ou algumas estão na agonia.

O Porto é uma cidade muito futeboleira, sempre gostou muito de futebol, havia dezenas de clubes. Havia campos como o do Ferroviários, do Ramaldense, do Desportivo de Portugal (que ainda existe).

Por estranho que pareça, outra das tradições que o Porto era muito adepto, eram as corridas de motos e de automóveis. As primeiras grandes corridas de automóveis fizeram-se no Circuito da Boavista, e, em Gomes da Costa – contava-me o meu pai –, faziam-se, anualmente, dezenas de corridas de motos, que só acabaram num dia em que houve um acidente no qual morreu um corredor. O automobilismo é uma das tradições da cidade.”

“A CIDADE ESTÁ RECONSTRUÍDA, MAS NO PROCESSO DE REABILITAÇÃO COMETERAM-SE ERROS, DESIGNADAMENTE, NO CAMPO SOCIAL”

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O objetivo da minha pergunta não era bem esse, pois queria referir-me às críticas quanto a uma gestão camarária que se interessou mais pelas corridas do que propriamente pelos problemas da cidade. Mas, já agora, ficam registados importantes factos históricos ligados ao desporto na cidade…

“É verdade que os adversários dessa Câmara, do doutor Rui Rio, acusam-no disso. Estou à vontade porque sou completamente independente. Acontece que muita gente não se lembra como estava Mouzinho da Silveira há dez anos, e muita gente não se lembra como estava a Rua da Bainharia, a Rua Escura e a Viela do Anjo., Não se lembram como estava Rua das Flores. Ou seja, como estava grande parte da Baixa e do Centro Histórico do Porto. Mas, a Rua de Mouzinho da Silveira é o exemplo máximo da degradação.

Há uma coisa que foi criada há cerca de vinte anos que se chama Sociedade de Reabilitação Urbana – SRU -, onde estive quinze anos no Conselho Consultivo, com uma verdadeira elite portuense, onde não me incluo , dos chamados Homens Bons do Porto – a verdade é que foi a SRU que lançou as bases para a reabilitação do centro do Porto. Através de um Masterplan que, então, foi elaborado, conhecia-se rigorosamente o estado de cada rua da cidade, e foram eleitos vários locais da cidade como prioritários: Carlos Alberto foi destacada como a zona para a primeira experiência de reabilitação urbana. A a verdade é que, neste momento, a cidade está praticamente reconstruída.

Agora, se me perguntarem: foi perfeita, ou não, essa reabilitação? Respondo que se cometeram erros, designadamente, no campo social. Há erros que dependem não da vontade do Município, mas de leis da República. Por exemplo, é ao governo que cabe promulgar boas leis de arrendamento!”

Esta é já a última secção temática do seu livro.

“Sim. A secção onde faço propostas concretas. A primeira secção é para demonstrar o orgulho de ser portuense; a segunda parte trata-se de uma espécie de viagem ao inferno que é o lado sombrio da cidade antiga, através de uma investigação; uma investigação que tinha feito para ser publicada com o livro das tabernas, mas que não coube. Refiro-me ao problema do alcoolismo nos anos 20 e 30 do século passado…

O ALCOOLISMO E AS TASCAS DO PORTO

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…esse problema – o do alcoolismo no Porto -, parece-me que, até hoje, só o professor o abordou.

“Esse problema nunca foi abordado. Havia assuntos que eram tabu. Mesmo abordar os tascos do ponto de vista cultural, como o faço, era um assunto tabu. Um assunto que os ingleses e os americanos abordam com regularidade. Os americanos os bares, os ingleses os pub.

Tinha um amigo que infelizmente já morreu, em Espanha, que também era investigador e que me mandou muita documentação sobre a ligação das tabernas e a classe operária. No Porto também há uma forte ligação entre as tabernas e as zonas onde vivia a classe operária, e há excelentes investigações, por exemplo feitas no País Basco, nas Astúrias, e na Catalunha. Esse meu amigo mandou-me algumas dessas investigações, que demonstram que as tabernas eram um lugar de convivência. Como há um autor que diz, que as tabernas são as Pátrias da Conversa. Eram os locais onde, depois do trabalho, a classe operário se reunia para conversar e conviver. Isto vem ao encontro da teoria de um autor americano. Ou seja, a teoria do Terceiro Lugar. O primeiro lugar é o sítio onde se vive, a casa; o segundo, o sítio onde se trabalha; e o terceiro lugar, o sítio onde se convive. Esse autor apontava os bares, que são os nossos tascos, e as barbearias como locais de convivência.

É evidente que o problema do alcoolismo existia! Mas numa cidade, como a do Porto, onde havia quinhentas ou seiscentas tabernas – chegou haver mais de mil – o facto de haver pancadaria, numa noite, ou em duas ou três, estatisticamente não era relevante, só que era isso que a imprensa relatava. O julgamento nos Casos do Dia era a pancadaria nas tabernas.

“ESTRATIFICAÇÕES”: A TASCA PARA O OPERÁRIO; O CAFÉ PARA A CLASSE MÉDIA E AS CONFEITARIAS PARA A MÉDIA-ALTA

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E as tabernas deveriam ser também sedes de “fake news”…

“… e de sede para os clubes desportivos que não as tinham. Era a sede das Caixas dos Vinte Amigos… os mealheiros onde as pessoas depositavam o seu dinheiro, uma espécie de mutualismo. E era sobretudo o local onde as pessoas discutiam o dia-a-dia.

Temos de ver o seguinte: a classe operária, para não dizer os pobres, porque nem todos da classe operária eram pobres – os encarregados das oficinas e os operários altamente especializados não eram pobres -, tinha a taberna; a classe média, os cafés, e a classe média-alta tinha as confeitarias.

As confeitarias eram locais luxuosos. Veja-se a Arcádia, a Confeitaria Oliveira, etc. Portanto, havia estratificação social até nesses locais…”

Estratificação que já não existe…

“…que existe mas de uma forma mais atenuada. A morte das tabernas começa…

… quando a ASAE começa a funcionar?

“Não só. A morte das tabernas começa quando, lentamente, a classe operária se vai transformando em classe média. Um operário, hoje, mesmo que viva num bairro social já não é a taberna que o preenche, é o café. É o pequeno café do bairro.”

Mas também há a associação, a coletividade do bairro, que vive, essencialmente, do café. Faz como que uma mistura…

“É uma mistura de café com sítio de lazer e de cultura.”

Refiro-me, por exemplo, a associações de moradores…

“A da Lomba era (era! Agora não sei) um verdadeiro centro cultural do bairro.”

E, assim, a tasca vai morrendo.

“Vai morrendo de morte natural. O mundo mudou”.

“FOI O INVESTIMENTO PRIVADO QUE RECUPEROU O PORTO”

E o Porto mudou, e tanto mudou que o Porto de 2019, nada tem a ver com o Porto de 2014 ou 2015… Entre essas mudanças, temos a tal invasão de turistas, que muita gente diz temer…

“Tenho um capítulo no livro em que isso é abordado. É fácil recuperar uma cidade desde que haja investimento. Foi o investimento privado que recuperou o Porto. O Estado deve ter metido alguma meia dúzia de tostões, se meteu algum. Foi o mercado que recuperou o Porto, com todas as virtudes e defeitos. Virtude: uma cidade em ruínas foi recuperada. Defeito: a expulsão de habitantes que está a acontecer em alguns sítios.

Há falta de legislação, e a legislação essencial é esta assim: cada um paga conforme as suas possibilidades. As casas são recuperadas, muito bem! Mas deve haver quotas, de uns tanto por cento, para o mercado que funcione à sua vontade; e zonas reservadas pela própria Câmara para habitação, com rendas controladas e justas. Todos têm direito à cidade! Não é os que ganham quinhentos irem para os confins do Porto, ou para Rio Tinto, e os que ganham cinco mil ficarem no centro da cidade.

Mas, a deslocalização – migração – dos tripeiros para os arredores da cidade, não é de agora!

“Esse problema começa talvez nos anos cinquenta. Nos anos quarenta já isso se começa a notar, mas entre cinquenta e oitenta nota-se mais, ainda que de uma forma superficial. Em 1982, o Porto tinha 330 mil habitantes, foi a sua maior população.

O arquiteto Auzelle, no seu Plano Diretor, de 1962 – que era o mais avançado que tinha surgido até então -, previa para o ano 2000, 500 mil habitantes para o Porto. Ou seja, que essa seria a dimensão ideal para a cidade em termos de habitantes. E que o Porto devia ser preparado, no ponto de vista urbanístico, nesse sentido. O que é que aconteceu?

Paranhos cresceu; Ramalde cresceu, é hoje uma nova cidade; o Centro Histórico e a Baixa despovoaram-se. O problema não se deu nas freguesias onde havia lugares para construir, o problema deu-se na baixa do Porto, com o seu despovoamento. E volto a referir Ramalde, porque Ramalde cresceu bem…”

“MANTER A AGRICULTURA NA CIDADE NEM SEQUER É UTOPIA, É ESTUPIDEZ!”

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Ainda que Ramalde tivesse perdido o seu lado rural…

“Nós temos que escolher, entre campos com bois e vacas, ou ter cidade. O que podemos exigir, em matéria de verdes, é jardins e ruas arborizadas, agora querer manter a agricultura dentro da cidade nem sequer é utopia, acho que é estupidez!

A agricultura deve ser bem apoiada nos sítios certos, não é dentro da cidade. Manter Ramalde, que é um espaço magnífico, como zona agrícola seria um crime contra a cidade. Muita da arquitetura que está lá a ser feita é de boa qualidade.Com boas ruas, como a de Mota Pinto.

Mas, como estava a dizer, o grande problema foi que o centro do Porto se despovoou. O centro foi sempre habitável. Eu nasci no centro, a cem metros da Praça. Nascia-se, vivia-se e morria-se no centro.

Quando houve a intervenção no quarteirão das Cardosas, apareceu um senhor arquiteto a atacar feroz mente – se calhar porque o projeto nasceu de uma arquiteta – esse projeto. Dizendo, inclusive, que tinham sido expulsos os habitantes da zona. Havia quatro ou cinco! E havia ruas na baixa que, praticamente, não tinham habitantes”.

O Porto morria às nove da noite, se não houvesse revista no Sá da Bandeira, ou coisa parecida.

“O Porto estava morto.”

Era um Porto perigoso. Vinha, então, e ao de cima, a tal questão relacionada com o alcoolismo,  mas também com a prostituição…

“Esse problema do alcoolismo vai diminuindo. Estamos a falar do alcoolismo que dá origem a distúrbios. E no estudo que fiz baseei-me nas notícias dos tribunais. A maior parte dos alcoólicos e das alcoólicas – porque, contrariamente, ao que se pensa, havia muitas mulheres alcoólicas. Tudo devido à dureza da vida.

Dos alcoólicos e das alcoólicas da média-alta nada vinha nos jornais. Eram as carrejonas e os carrejões, sobretudo as profissões mais duras que havia, e que encontravam no álcool uma espécie de forças para no dia seguinte voltarem à labuta.

“O TURISMO ESTÁ CONCENTRADO ENTRE A «LELLO», A RIBEIRA E AS CAVES DE VINHO DO PORTO”.

Falámos da invasão de turistas que se está a verificar, em crescendo, no Porto ao longo dos últimos de cinco anos, mas também há os estudantes que vêm para o Porto e cada vez em maior número, muitos deles para aqui residir…

“Temos de separar o Erasmus, do viajante. Não acho que haja turismo a mais, há é Porto a menos, porque o turismo está, praticamente, concentrado entre a Lello, a Ribeira e as Caves de Vinho do Porto. Nós vamos para outros sítios magníficos da cidade e não vemos viajantes. A zona das Antas, que é muito bonita. A zona do Marquês. A Foz! À noite se passar na margem atlântica, não vê ninguém. De Verão vê muita gente, mas de Inverno, ninguém. Não há um hotel a funcionar na margem atlântica da Foz. Há um hotel na Foz Velha, mas, entre aí e Matosinhos, não há outro hotel. Estão a fazer, ou vão fazer um hotel na Avenida Brasil. Vão fazer, e será o primeiro. E se for para Campanhã encontra um deserto. Quem é que vai para a Corujeira? Vão é para o estádio do Dragão, porque 50 por cento dos visitantes do Museu do FC Porto são já estrangeiros.

“O INFARMED NO PORTO SEMPRE FOI UM BLUFF! O PRIMEIRO-MINISTRO NÃO CONTAVA QUE OS LÓBIS LISBOETAS FOSSEM TÃO PODEROSOS”

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Por falar nessa área – a área de Campanhã -, e segundo o que foi referido pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, seja com um plano “A” seja com um plano “B” o projeto para o antigo Matadouro vai avançar…

“É excelente! É uma maneira de descentralizar, e revitalizar com qualidade. Com boa arquitetura. E instalar serviços. Se houver descentralização; se vierem serviços para o Porto, eles não têm que ficar localizados no centro”.

O Infarmed já não era para o centro, era para aqui, para Lordelo.

“Nunca acreditei no Infarmed, aliás escrevi isso no Jornal de Notícias. Para mim, aquilo sempre foi um bluff. Acredito que houvesse alguma boa intenção do primeiro-ministro quando falou no assunto, mas ele não contava que os lóbis lisboetas fossem tão poderosos…

E logo nesse ramo específico.

“Exatamente!”

“O PORTO PERDEU CERTAS TRADIÇÕES, E AINDA BEM, COMO A DE CUSPIR PARA O CHÃO!”

O Porto não perdeu a sua identidade ao longo destes últimos anos?

“Acho que não. Agora, o Porto vai ter de se reinventar! Há tradições que acabaram, ainda bem, como a tradição de cuspir para o chão; ou a tradição de bater na mulher, essas são tradições que não interessam. E há tradições que acabam mesmo, porque estão ligadas a determinadas épocas. Mas as tradições reinventam-se. Há um autor, que cito muito, Eric Hobsbwan, que lançou, nos anos 60 um livro explosivo, chamado «Tradições Inventadas», em que diz que cada época inventa a suas tradições. Quando falo nisso muita gente risse, e eu dou logo um exemplo: a francesinha que é uma grande tradição do Porto foi inventada nos anos 60. A Nossa Senhora da Areosa – quer como conceito, quer como imagem, quer como culto -, também foi inventada nos anos 60., Na Areosa, não havia nada e foi, então, preciso inventar uma santa específica da Areosa. Por isso as tradições inventam-se, e temos que inventar mais algumas.”

Mas, a francesinha foi mesmo inventada no Porto, é que há quem diga que não?

“Foi mesmo inventada no Porto, por um senhor da «Regaleira», o senhor Daniel. Isso confirma-se”.

“ONDE ESTÁ UM MONUMENTO AO ESFORÇO OPERÁRIO QUE AJUDOU A CONSTRUIR A CIDADE?”

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O herói anónimo, ou o herói popular; o trabalhador do Porto não tem uma estátua na cidade. Por exemplo as carquejeiras, ou até do Duque da Ribeira…

“… o Duque da Ribeira tem um pequeno monumento a que eu estive ligado, aliás até tem uma frase que é minha, e tem um baixo-relevo em bronze com o retrato dele, na Ribeira.

A das carquejeiras não ata, nem desata…

“Não ata, nem desata, porque se fosse uma figura importante já tinha desatado. Há uma época, na primeira metade do século XX, que um terço da população do Porto era operária. Onde está um monumento ao operariado?”

Pois, eu pergunto o mesmo.

“Um monumento ao esforço operário que ajudou a construir a cidade.”

Principalmente na zona Oriental.

“Mas havia também muitas fábricas aqui em Lordelo e Massarelos. Portanto, há um défice de povo, e talvez por uma razão muito simples, porque a mentalidade do Porto é a de uma cidade burguesa e liberal. Uma cidade burguesa e liberal é uma cidade que tem muitos aspetos positivos, mas também negativos. Dessas profissões, que não só a das carquejeiras, havia também as cascalheiras, as carregadoras do sal, do carvão, de paralelepípedos. Imagina o que é carregar à cabeça, em cestos, paralelepípedos? Sabe o que é carregar sal durante cinquenta anos com os pés metidos no sal, a encher o gigo e trazer o sal, por uma prancha, para terra? Sabe o que é carregar carvão à cabeça, numa prancha? Do carvão que vinha de barco…”

AS ”ILHAS E O PORTO QUANDO APELIDADO DE … “CIDADE MORTUÁRIA”

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Este Porto também se esquece de coisas importantes.

“Esquece-se. Eu tento fazer relembrar. É claro que não tenho a experiência de tascos, nem da classe operária, mas a função dos intelectuais e da Cultura é defender causas, e sobretudo causas justas, e acho que se tem cometido uma grande injustiça para uma parte da população que também ajudou construiu a cidade, porque se não fossem os operários as fábricas não tinham funcionado. E durante quase um século, muitas famílias do Porto tinham as lareiras acesas e as padarias funcionaram porque as carquejeiras levavam cinquenta quilos… de carqueja às costas pela Corticeira acima. É uma questão de ingratidão!”

E também houve empresários que souberam lidar com os trabalhadores…

“… muito poucos!”

Refiro-me, entre outros, a Manoel Pinto de Azevedo…

“… esse é um exemplo”.

Era dele a única fábrica que tinha uma creche, onde as operárias podiam deixar os filhos enquanto trabalhavam, entre outras coisas.

“Creche e bairro operário, mas são quase exceções. A Fábrica de Salgueiros tinha algumas casas para os operários. Mas, contam-se pelos dedos das mãos os empresários que fizeram algo de significativo. A visão social do empresariado do século XIX, e de parte do século XX, é de um pensamento centralizado no lucro e só nele. Poucos eram os empresários que tinham uma visão social.

A própria Câmara ignorava a questão das ilhas. As taxas de mortalidade no Porto era das mais altas da Europa. Chamavam ao Porto uma cidade mortuária, e onde é que essa se mortalidade se registava ou se manifestava? Nas ilhas, Por quê? Por duas razões fundamentais. Primeiro, a falta de saneamento. Segundo. a ausência de abastecimento de água. As pessoas bebiam água inquinada.

Foi preciso o Doutor Ricardo Jorge denunciar isso tudo, para que a própria Câmara começasse a mudar de perspetiva. Isto no final do século XIX. Muito tarde!

Por outro lado, o analfabetismo que atingia, para aí, noventa por cento da população, sobretudo a economicamente mais débil. Só aprendiam a ler ao domingo de manhã, para lerem a Bíblia”.

“AGRADA-ME UM CÂMARA INDEPENDENTE”.

Regressando a 2019, todos sabemos que fez elogios ao atual executivo e em concreto ao presidente Rui Moreira. O Porto está bem entregue?

“Agrada-me um Câmara independente, por uma razão: é para ver se, de facto, os partidos acordam para uma realidade que eles estão a ser desacreditados junto da opinião pública. E as candidaturas independentes têm essa vantagem, ou seja não estão dependentes da disciplina partidária. Assim, podem tomar decisões mais livremente.

Eu não gostaria de ver a acabar os partidos; gostaria de os ver ao serviço do país e não ao serviço de estratégias. As candidaturas independentes podem trazer um grande safanão. Aliás, sou a favor de candidaturas independentes para a Assembleia da República…”

… é uma discussão…

“… que está em aberto”.

Há, contudo, também uma realidade que se deve relevar: há decisões tomadas na Assembleia Municipal e no executivo por unanimidade. Isso é positivo?!

“Sim, isso é positivo. Na cidade deve existir uma coesão de pensamento em torno de assuntos vitais. Acho que é positivo. Uma das questões em que, muita das vezes, os partidos se envolvem deviam votar a favor, e só não votam porque ou vem da oposição, ou vem do governo. Nas autarquias isso nota-se muito. O executivo toma uma medida se for certa é uma medida certa, seja que de lado vier. O executivo ou governo pode anular essa medida porque quer lançar uma sua.

Eu, nunca serviria, por exemplo, para estar numa Assembleia da República, porque independentemente de quem fosse a apresentar um projeto de Lei, eu aprovaria se concordasse com ele, facto que está vedado, por disciplina partidária à maioria dos deputados.”

É um homem de esquerda?

“Já nem sei onde estou, porque quando vejo assumirem-se, como homens de esquerda, certas pessoas, em Portugal e na Europa, e assumirem-se, como homens de direita, outras certas pessoas, já nem vale a pena essa classificação.

Há uma coisa que eu prezo acima de tudo, que é o conceito de Pátria, de patriotismo, e o orgulho em ser português. Isto é um conceito de direita.

É um meritocrata?

“Sou. Que é um conceito de direita”.

A meritocracia é um conceito de direita? Essa desconhecia.

“Sou defensor acérrimo da Justiça Social, que é um conceito de esquerda”.

“TENHO PENA QUE HAJA TÃO POUCOS REPUBLICANOS E QUE ISTO SEJA TÃO POUCO REPÚBLICA”

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O 25 de abril marcou-o?

“Marcou-me, porque dei o corpo ao manifesto depois dele, como o já tinha dado antes. Estava no Ministério da Educação e depois fui convidado para integrar uma outra equipa do Ministério da Educação após o 25 de Abril, e passei aquela fase de 74. Fui convidado para a Inspeção do Ministério da Educação, em outubro de 1974, e atravessei o PREC. Eu, e os outros colegas, fizemos tudo para manter a dignidade das decisões e elevar a qualidade da Educação. Foi feito um grande esforço. Só a criação de escolas que se fez a partir dessa altura e as mudanças que houve nos programas, na formação de professores, etc., etc foi extraordinária. Procuramos mexer o melhor possível, o que significa que sou um homem do 25 de Abril, e, acima de tudo, porque o meu pai era um republicano convicto, e se me perguntar o que politicamente sou, assumidamente, sou republicano.

Acredito firmemente que uma democracia republicana é o melhor Estado para o nosso país, só tenho pena que haja tão poucos republicanos, e isto seja tão pouco República. Há demasiada corrupção a minar a República…

…que a descredibiliza.

“que a descredibiliza”.

“O 25 DE ABRIL AINDA NÃO CHEGOU, EM PLENO, AO DIREITO À HABITAÇÃO CONDIGNA”

Falando em 25 de Abril, fala-se também em liberdade de expressão, e vem, assim, à memória, a extinção de títulos, no Porto, como os de “O Primeiro de Janeiro” e “O Comércio do Porto”. Terá sido o princípio de uma morte anunciada à importância do papel como veículo de informação, neste caso livre e independente?

“Anuncia-se a morte dos jornais em papel como a dos livros, o que já ouço há cinquenta anos. Mas, vai-se a Nova Iorque a vê-se as maiores livrarias do mundo cheias de livros. Vai-se a Paris e vê-se as livrarias cheias de livros e de gente, mesmo em Portugal nunca se editou tanto. A morte utópica do livro, e que a informática vai resolver tudo, é um sentimento muito reacionário do ponto de vista cultural e social”.

Mas os jornais vão acabando.

“Os jornais vão acabando, mas em Espanha e dela para cima não acabam., Vão acabando cá”.

O que é que se terá passado com esses jornais de referência no Porto e do Porto. Jornais históricos.

“Talvez demasiada dependência da televisão e, depois, demasiada dependência da internet, e ainda a não criação de hábito de leitura de jornais na Educação. Dos livros, a Escola tem tido programas interessantes e em algumas escolas faz-se um esforço. Agora, os jornais é, claramente, uma questão cultural, não é uma questão económica.

Os operários, por exemplo da VW de Setúbal já não são os proletários do Marx, já fazem parte da classe média. Têm uma vivenda, automóvel e os filhos estão na Universidade, e ainda bem! O país mudou!”

“A DESCENTRALIZAÇÃO DAS UNIVERSIDADES FOI UMA MEDIDA MAGNÍFICA!”

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A Universidade democratizou-se?

“Ainda não completamente. O filho de uma família do Bairro da Pasteleira tem muito menos possibilidade que um filho de uma família da classe média de chegar à Universidade. Aí o 25 de Abril ainda não chegou.

Como ainda não chegou quando se fala em direito à Habitação condigna, e depois do país equilibrado entre o interior e o litoral… está cada vez mais desequilibrado. O interior é só paisagem”.

E a tentativa de colocar universidades em diversos pontos do país, não ajudou à descentralização?

“Essa foi uma medida magnífica, porque a revolução que está haver no Alto Douro na vinha, deve-se à UTAD. Aveiro deu um grande salto com a Universidade. Por isso, é que eu digo que o país mudou muito. O país nada tem a ver com o Portugal de há 50 anos. É muito melhor!”

“O PORTO QUE NÃO SE VÊ”

Sente orgulho em ser português e em ser tripeiro?

“Completamente.”

Qual vai ser a sua próxima obra?

“A próxima obra? Estou um pouco cansado de travar lutas. Parece que uma das minhas lutas vai ter um desfecho positivo que é a compra da casa do Garrett. Ando há mais de vinte anos a pugnar por isso. Outra das minhas lutas era a do Parque Oriental. Agora, andar sempre a lutar por causas, cansa. Assim sendo, o meu próximo livro vai ser romântico. Sobre as coisas bonitas do Porto que normalmente não se veem…”

O que é, já de si, uma luta! (risos)

“O Porto que não se vê. Um dos meus autores favoritos – foi uma injustiça o Nobel não ser para ele -, chama-se Miguel Torga, tem um poema que começa com “a vida é feita de nadas”, e eu vou demonstrar que as cidades também são feitas de nadas. São feitas de pequenas coisas. Será um livro mais sentimental.

Mais poético?

“Sim.”

Mas, o Porto é uma cidade poética.

“É uma certa forma de poesia. Aparentemente é uma cidade fechada. As duas maiores revoluções que houve no país, deram-se no Porto, logo não é uma cidade reacionária, nem fechada. A Revolução Liberal arrasou o país. O país antigo mudou. A Revolução Liberal de 1820 e o 31 de Janeiro que falhou, mas não falhou.

PORTO: DA CIDADE

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Da introdução

“Aqui pretendo falar da capacidade da cidade — recuperando-lhe o corpo físico, o construído, a matéria, o concreto — reconstruir ou reencontrar ou, se calhar (numa previsão mais realista, para não admitir demasiado entusiasmo), nem mais, nem menos, resistir, resistir e conservar a alma.
Sem lhe mexer no essencial. Actualizando-a com pinças para a adaptar aos tempos modernos e impetuosos em que o falar à moda do Porto — trocando os vês pelos bês — e de cima da burra para o centralismo e a mediocridade continuam a ser excelentes indicadores da sanidade do sentir (se) tripeiro.
No fundo é esse o seu encanto: ser tradicionalista mas rasgar, quando necessário, as convenções. Ser previsível e, de repente, inventar a diferença e construir o não conhecido”.
Hélder Pacheco

Ano de edição ou reimpressão: 03-2019

Editor: Edições Afrontamento

Idioma: Português

Dimensões: 234 x 295 x 23 mm

Encadernação: Capa dura

Páginas: 300

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Artigo de Jóse Gonçalves In Jornal ETCeTAL! Edição de 1 de Maio de 2019

~ por Helder Pacheco em 2019-08-09.

 
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