UM BARBICAN PORTUENSE

O Financial Times dedicou uma reportagem aos 50 anos do Barbican. Chama-lhe Complexo. Construído perto da Catedral de S. Paulo e desenhado pelos arquitectos Chamberlin, Powell e Bon, requalificou, a partir de 1963, a área arrasada durante a II Guerra, recebendo moradores em 1969. (Poucos e idosos, juntaram-se agora, para comemorar o acontecimento.)

Incluiu 2000 habitações, 4000 residentes, lojas, duas escolas, teatro e sala de concertos e o Museu de Londres. E recuperou parte da muralha da cidade. Meio século depois o Barbican goza do maior prestígio.

O Porto possui o seu Barbican e não menos ambicioso. Pensado em 1962 e construído a par do londrino, foi concluído em 1973. Chamava-se Parque Residencial da Boavista – ou Graham (fábrica em cujos terrenos foi edificado) e acabou como Foco (do cinema nele existente). Ocupava uma área de 70 000 m2, 10 imóveis residenciais (as torres são posteriores), zona verde, lojas, cinema, hotel, duas piscinas, restaurante, snack-bar e a mais bela das novas igrejas da cidade. Projectado pelos arquitectos Agostinho Ricca, João Serôdio e Magalhães Carneiro, representa um pensamento ímpar da urbe moderna. Associando o conceito de bairro tradicional, auto-suficiente e aberto à qualidade de um ambiente inovador, nunca entendi as razões porque, nas áreas comercial, de lazer e cultural, tombou na decadência. Nem o hotel sobreviveu, numa cidade que construiu dezenas.

Faço votos para que, no elan que envolve o Porto, esta lição de construir cidade renasça das cinzas e, no seu 50.º aniversário, reencontre a grandeza e a dinâmica originais.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-08-24.

 
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