Da Cidade Sólida

A memória é a nossa reserva de referências sobre a cidade: pode ser um aroma, um som, uma conversa, um objecto.

Como a cidade é sólida, assim também as lembranças que nos evoca. Não admira que, a propósito da crónica sobre o encerramento da loja de cereais, tenha recebido de uma leitora, este naco de saudade: «Fechou a minha “Loja de Passarinhos”. Estou revoltada: fecha mais uma referência do Comércio tradicional da cidade, na antiga Rua do Moinho de Vento.

Encontrei, colada, a seguinte informação escrita à mão: “Fecha a Casa de cereais mais antiga do Porto. Obrigada por nos terem escolhido 1.6.2019. Casa Castanheira”, António Matias Castanheira Carvalho. “Venda de animais de companhia e alimentação dos mesmos”.» E prossegue: «Lembro-me de em pequenita ir com a minha mãe comprar sementes para a quinta ou para alimentar os pássaros que tínhamos em casa. A loja era pequena, com um balcão de mármore, muitas prateleiras e sons de encantar. Eram as sonoridades dos passarinhos que enchiam a casa e até havia quem entrasse só para os ver, ouvir e tecer conversa sobre eles.

Troféus estimados para o dono, embora a venda fosse o seu objectivo, havia sempre um ou dois reservados. Intransmissíveis. Curiosa, mirava os sacos de sementes, de cores variadas, em serapilheira e mais tarde em plástico, que povoavam aquele espaço. Dependuradas, havia gaiolas, bebedouros, piscinas para as gaiolas, sacos de alimentos, alpista e outros e miolo de choco para os pássaros aguçarem os bicos. Mas os sons, ainda os guardo na memória.»

Eis a perenidade do sentimento de pertença a uma cidade.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-09-08.

 
%d bloggers like this: