Ser Moderno

Com a reabilitação de quarteirões, de onde as cores tinham desaparecido e a desolação imperava, o Porto está a tornar-se uma cidade menos austera. Menos cinzenta. Dantes, tal como Dublin e as cidades do Norte de Inglaterra, compensava a austeridade com o colorido dos prédios e portas (até a Muralha da cidade, na Ribeira, era pintada de várias cores!) Uma cidade antiga não tem de ser escura para ser autêntica.

Disso percebe o bretão e homem de cultura Philippe Beurel, admirador do Burgo, que escreveu: «Nada como uma estadia no Porto para que ressurgissem os anos do século passado. A cidade soube manter harmoniosamente o espírito urbano que torna a vida encantadora: uma sociabilidade densa, mas com muitos espaços íntimos, uma diversidade significativa de tendas e lojas hoje em dia já desaparecidas das cidades francesas, um notável civismo e cortesia, uma forma de viver indiferente a qualquer procura de aprovação exterior (…) O Porto é uma passagem aberta para a minha infância, onde nada foi alterado, «o passado sorrindo, de cotovelos apoiados sobre os telhados», como diz esse belo verso de Valery Larbaud, que amava as cidades com um amor inquieto.»

Amor inquieto – imagem que serve para pensarmos o Porto e as suas transformações. Mudar? Sem dúvida. Renovar? Indubitavelmente. Mas Porto é Porto. É assumir aquela «forma indiferente» à aprovação exterior. Nós somos a cidade, um atributo pessoal. Não desistir do bairrismo, nem abdicar do orgulho de ser tripeiro são desafios colocados aos portuenses. Não nos esqueçamos disso. Sejamos modernos mas fiéis aos nossos princípios.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-09-08.

 
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