DA PALACE ATÉ AGORA

A primeira vez que fui a Londres, embasbaquei. Não que Santa Catarina, os néons e o requinte das lojas ficassem atrás, mas impressionava a quantidade de comércios inovadores. Em Bayswater vi, pela primeira vez, uma sex-shop, com tudo exposto na montra. Espanto para quem ia de um país onde, na praia, os homens não podiam andar de peito ao léu quanto mais as mulheres! Passei a ir a Londres anualmente e estranhei a rapidez com que as lojas mudavam. No ano seguinte, parte delas já eram outra coisa. Abrir e fechar faziam parte do sistema.

Cá, a gente habituava-se a uma loja com fidelidade. Era essa a minha relação com a Palace, que existia quando nasci e a cuja morte assisti. A Palace vendia os melhores Jesuítas do Porto. Em 27.7.1918 noticiava “O Comércio”: «Merece ser assinalado à consideração pública o novo estabelecimento (…) no magnífico ângulo com a rua 31 de Janeiro. (…) Apresentam as vitrinas o tom distinto do marfim antigo, avivado a ouro. O estilo da decoração é Renascença italiana.» A notícia desdobra-se em encómios à decoração e aos artigos para venda. O que comprova a atenção da imprensa ao comércio da cidade.

Tudo mudou. Na velocidade a que hoje se inauguram estabelecimentos os jornais encheriam as páginas. Nanja que seja mau. Pelo contrário. E, sem dúvida, muitas lojas modernas têm tanta ou mais categoria do que as dos nossos avós e bisavós. Algumas são exemplares. Nós é que, habituados à mudança e à transformação, já nem damos por isso. E é pena pois a inovação bate-nos à porta e devemos recebê-la com a pompa e a circunstância da minha Palace.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-09-16.

 
%d bloggers like this: