Despojos dos dias

Acabei de rever um dos meus filmes favoritos: “Os Despojos do Dia”, de James Ivori, baseado no romance de Kazuo Ishiguro. É história intrigante e complicada de desencontros, preconceitos, desilusão e desistência (do amor, de ideais, de viver plenamente). Da tristeza e do sem-sentido. Do vazio.

Não sei o que um psicanalista diria do que o filme me trouxe à ideia! Nem paixões frustradas, nem vidas truncadas. Simplesmente o absurdo da destruição patética de um dos museus onde a cultura do povo – coisa parola! – havia adquirido dignidade. O seu real significado. Refiro-me ao Museu de Etnografia e História do Porto.

Não admira o gesto. Em matéria de tradição cultural os parâmetros do Terreiro do Paço eram os do SNI (que o Museu portuense nunca assumiu). Depois, como em delirium cosmopolita os ingleses fecharam o Museum of Mankind e os franceses o Musée de L’Homme, os abencerragens caseiros encerraram o de Arte Popular (sem o desmantelarem) e o do Porto (dissolvido e disseminado por pontos que ainda gostava de saber). E o que sucedeu à sua biblioteca magnífica? E onde pairam as centenas de peças deste excepcional repositório do que poderia ser – hoje, que faltam locais de excelência na cidade – a grande mostra da memória cultural da Área Metropolitana do Porto?

Mas o que mais me enoja é que enquanto este, nosso, se volatilizou, o da capital modernizado e reaberto, mantém actividades e iniciativas contínuas. Não que seja contra a sua existência, mas sim por o Porto ter ignorado o desprezo, esquecido e devastação a que foi submetido. De que nem os despojos se conhecem.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-10-25.

 
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