Que viva a Serrana

A jornalista Mariana, que coscuvilha tudo, alarmou-me: «Apesar do “selo” de loja histórica a Serrana continua em risco.» O alarme funcionou por dois motivos. Um, gustativo: a Serrana fabrica as melhores Bolas de Berlim do Burgo.

O outro foi apontado pelo JN (19.1.15) em: «Um tesouro escondido na Rua do Loureiro». A Confeitaria Serrana, pela sua beleza, é a Lello da especialidade. Nem admira: em 1912, Alfredo Cunha requereu à Câmara a construção, no local, de luxuoso estabelecimento de ourivesaria. Projectado por Francisco Oliveira Ferreira misturava estilos, e os interiores foram decorados com esculturas de José Oliveira Ferreira e pinturas de Acácio Lino.

Mas Alfredo Cunha tinha outra visão: em 1914 requere à Câmara a instalação de nova ourivesaria, na Rua 31 de Janeiro. Seguiu-se a perda do esplendor da outra loja, de casa de fazendas a restaurante, com alterações ao nível térreo e na fachada. Felizmente o 1.º andar, sobreviveu. Em 1952 tornou-se confeitaria e continuou a degradar-se até que a Mónica, que a herdou do pai, resolveu restituir-lhe a dignidade. Recuperou o que era possível e transformou a Serrana em referência do comércio antigo renovado.

É, por isso, incompreensível que, em nome do cosmopolita ou do especulativo, não haja empreendedores com modernidade para entenderem que a categoria está em conciliar tradição e inovação. E renovarem a cidade sem traírem o seu carácter. O dinheiro só, não chega para fazer do Porto admirado cá dentro e lá fora. Que viva, pois, a Serrana em nome da qualidade comercial portuense (e da doçura das Bolas de Berlim).

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-10-25.

 
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