A CASA DE GARRETT

O gazetilheiro Simões de Castro, espantado com o que via, escreveu: «Sinto-me besta, cavalo, / Estou camelo, estou burro; / Tenho a cabeça em xarope, (…).» E eu não queria acreditar na notícia do JN: «Câmara desiste de comprar casa de Almeida Garrett».

Fiquei abismado, não pela atitude da Câmara mas pelo facto do proprietário da casa pretender vendê-la, com as do lado, por «entre quatro e cinco milhões de euros» quando lhes atribuíam um milhão e meio. Conclusão: na casa de Garrett existe um poço de petróleo ou mina de ouro!

Garrett ali nasceu em 1799 e apesar de ter vivido mais em Gaia e na Boavista, o edifício constitui um marco, por ter sido berço do maior vulto da cultura portuguesa, fiel à cidade que honrou por todos os meios, sobretudo políticos. O Porto, que, nunca soube, em vida, retribuir-lhe essa fidelidade, teria agora a oportunidade de o fazer, criando um centro interpretativo da sua obra e da própria história do liberalismo.

A ingratidão portuense seria atenuada em 1856, quando o município descerrou na frontaria do imóvel uma excelente placa «mandada gravar» em sua memória. Face ao impasse criado sobre a casa, à qual até um incêndio aconteceu, a Câmara não pode aceitar aquelas exorbitâncias financeiras. E, esgotando as suas competências, deve exigir a sua reabilitação até ao mais ínfimo pormenor, recusando qualquer alteração arquitectónica. Incluindo a boa conservação do medalhão da fachada. Para o cúmulo da ambição financeira, a resposta só pode ser a absoluta exigência para o conjunto. Nem um prego a mais. Que o mercado funcione mas não assim.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-11-24.

 
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