O AR DO PORTO

Um mito urbano que corria no Porto dizia que a Rua de Cedofeita era a mais poluída da cidade. E constituía um atentado à saúde pública, respirar naquele corredor por onde passavam centenas de autocarros e automóveis. Para aliviar, tornou-se em parte pedonal e nunca mais recuperou do esplendor de outrora.

O problema não é de agora ou do século vinte. É mais antigo. Nos finais de oitocentos chamavam «condições de salubridade» àquilo que tornaria o Porto cidade «cemiterial» ou «mortuária». Em 1894 o Dr. Arantes Pereira elaborou uma dissertação na Escola Médica sobre a “Análise do Ar” que o Burgo respirava e chegou a «desgraçadas conclusões» (sic).

Eram alarmantes. Bom ambiente só na Torre dos Clérigos, onde o número de bactérias por metro cúbico era de 330. Outro local «respirável»: as escadas da Igreja de Santo Ildefonso (1600). A partir daqui, a situação deteriorava-se. O Hospital de Maria Pia atingia 6600 bactérias, Campo da Regeneração 8000, Carlos Alberto 10000, Hospital do Carmo, 13320 e Rotunda da Boavista 14490! No pátio da Câmara a degradação alcançava 47706 bactérias/m3. Mas o local mais perigoso era o Hospital da Misericórdia, cuja média nas enfermarias batia o recorde: 77573 bactérias /m3. Neste estudo pioneiro e utilíssimo (se houvesse então sabedoria para o entender), até os cemitérios eram de temer: o Prado do Repouso (oásis de verdura) ficava-se por 3990 bactérias, enquanto Agramonte chegava às 8660. Embora longe de Nova Delhi, com padrões actuais de análise da «qualidade» do ar tripeiro, ainda gostava de saber o lugar da cidade no plano internacional.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2019-11-24.

 
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