Galerias Lumière

Mantenho viva a recordação das Galerias Lumière. E, em primeiro lugar, do cinema. Dos cinemas (que lhe deram nome) e dos filmes que neles vi. Tantos, que nem recordo os nomes. Mas ficará para sempre guardada a imagem da comodidade e do encontro com os cinéficos meus amigos.

Quando surgiram, em 1978, com projecto do notável arquitecto Magalhães Carneiro, as galerias correspondiam a um conceito inovador do espaço comercial à escala da cidade, onde o small era beautiful. Eram a mudança nos hábitos portuenses, afeitos à loja personalizada, e ofereciam um novo sentido para a sociabilidade.

Mas o mundo mudou. E a era das megasuperfícies, onde as solidões se revêem e a individualidade se esbate, veio trazer a perdição destes espaços. Espalhados pelo Burgo, foram ficando esquecidos em Cedofeita, 5 de Outubro, Alex. Herculano, Galiza, Heroísmo, Santa Catarina, Campo Alegre, Av. Brasil, na Raione etc. Alguns conseguiram resistir ou (como o Stop) renascer, outros arrastam-se no subaproveitamento.

Da segunda vida das Lumière, em 2014, destaco o sossego, a luminosidade e as lojas de gelados ou de jornais-revistas (onde o melhor de ler se encontrava), além, obviamente, da Poetria – símbolo livreiro da Invicta. Mas tal renascimento está em risco. (Esta cidade, tão ansiosa de mudar – e enriquecer – de vez em quando descuida-se com o cuidar da alma.) Mas, nas pisadas da modernidade, talvez o Município possa salvaguardar a continuidade das Lumière, impondo a conciliação dos seus espaços com a função do que nelas pretendem agora construir. Arquitectura e imaginação precisam-se.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-02-05.

 
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