Iniciações

Acho que foi Ilse Losa quem escreveu: «O que seríamos nós sem as nossas recordações…» Por isso deu-me para recordar o meu avô Eduardo, pelo inesperado encontro de uma fotografia sua, esquecida nas velharias da família.

Nela, vemos o elegante dos cafés e cabarés da Baixa portuense, pelos anos vinte do século passado (o cabaré era o Primavera, na Rua dos Lavadouros): cravo na lapela, bigode frisado, colete com relógio de bolso, colarinhos engomados e gravata de seda. Um tirone.

O avô Eduardo foi o meu primeiro desvendador do Porto. Vinha buscar-me aos sábados, trazendo um embrulho com a prenda da semana. Normalmente jesuítas da Palace, acompanhados de um livro, desde as “Aventuras do Capitão Morgan”, “Sandokan” e “Alice no País das Maravilhas”, até Júlio Verne. Foi, portanto, iniciador à descoberta do Porto e incentivador da leitura que, para mim, continua a ser (apesar da Web Summit e C.ª) o motor insubstituível do desenvolvimento pessoal.

A iniciação ao Burgo fez-se de eléctrico, com itinerários caros a um conservador inveterado: jardins e exposições no Palácio, a Foz toda, do Passeio Alegre ao Pavilhão de Carreiros, onde lanchávamos. Outro passeio, a pé, era subir até ao Piolho (aí, viciei-me em mazagrans, que desapareceram dos hábitos portuenses) e depois, por Carlos Alberto, Bairro de Cedofeita e Rosário fora, até à Torrinha e Rua da Paz (onde vivia a minha tia-avó Belmira). Como se depreende, para o avô Eduardo, o Porto era a Baixa, Cedofeita e Foz, depois tive de o aprender mais completo.

E desculpem os leitores esta evocação, mas acordei sentimental. É a vida!

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-02-05.

 
%d bloggers like this: