Missa do Galo

Quando morava na Rua do Correio, a noite de Natal originava divergências familiares. Aproximando-se a meia-noite, minha avó e minha mãe, depois da azáfama da consoada, preparavam-se para sair, rumar aos Congregados e assistirem à Missa do Galo.

Isto provocava reacções de meu avô, monárquico conservador e ateu convicto (era um contra-senso) e de meu pai, republicano militante, naturalmente ateu, mas aceitando as opções femininas. E o assunto só não azedava porque, em noite de concórdia e mesa farta os ânimos não desatinavam. Tudo ficava entre o «As beatas não tinham nada que sair», de meu avô, e o «Deixe-as. Vão para o frio e faz-lhes bem», de meu pai. E saíam, acompanhadas por um primo de Cinfães em tirocínio antes de emigrar para o Brasil (onde enriqueceu e não mais regressou). O rapaz era de pau de cabeleira das madamas (que, ante a oposição dos chefes da família, deixaram de me obrigar a ir) e eu ficava no quente a ouvir rádio e a rapar a travessa do creme.

Esta memória da infância, evoca-me duas coisas. Alexandre Herculano que, em 1841, escreveu: «A noite da Missa do Galo gera a poesia em corações que no outro dia ela não saberia agitar.» E um inesperado Relatório (de 1843) da Comissão encarregada pela Mesa (da Santa Casa da Misericórdia) de investigar custos e reduzir despesas. Entre outros factos, dizia que «se deve suprimir a Missa do Galo; solenidade que longe de servir de edificação aos fiéis, somente serve para dar ocasiões ao escândalo e desacato.»

Vamos lá entender esta cidade! E com tal conclusão desejo a todos Bom Natal (com ou sem Missa do Galo).

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2020-02-05.

 
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