Na Boavista

Coisas espantosas sucedem no Porto. Devo dizer, que em cidade liberal, o direito de opinião é valor sagrado. Que cada um entenda e diga o que quiser. Mas isto é uma coisa, outra é ter razão e vem a propósito dos 4 000 opositores ao Corte Inglês na Boavista. Estatisticamente, em relação à cidade nocturna (230 000 habitantes) valem 1.74%. Em relação à cidade diurna (500 000 hab.) são opiniões.

A Boavista seria pensada como a centralidade que iria substituir a Baixa. O aparecimento do Brasília foi um sucesso. Júlio Dinis impôs-se com comércio sedutor: a melhor discoteca do Burgo (a Clave), os Orfeus, a Bertrand, a Petúlia e outros. Mas a Rotunda jamais conseguiu tornar-se um centro de negócios, pelo contrário, hoje é terra de ninguém. E com o assalto bancário da zona, iniciou-se o declínio da Boavista convertida em defunto urbano.

Esta oposição à inovação tem antecedentes: a construção da Casa da Música levantou o repúdio pela destruição da remise dos eléctricos. Tal como na remise, apresentam-se agora  argumentos raiando o absurdo, como a necessidade de espaços verdes, quando a Rotunda é o maior, melhor e mais bem desenhado jardim do Porto!

A única maneira de salvar a Boavista do imobilismo em que se encontra é transformá-la num grande centro de lazer, negócios e habitação. Com a Casa da Música, o (ressuscitado) Bom Sucesso, o Cidade do Porto (o Península e o Brasília renovados, seriam interessantes pela sua escala humana), o Corte Inglês pode, finalmente, ajudar a encontrar a âncora e o motor da centralidade urbana cuja categoria pretendiam alcançar há meio século.

©helderpacheco2019

~ por Helder Pacheco em 2020-02-05.

 
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