CERCADOS

A quarentena não é estranha à cidade, bem como resistir a uma epidemia durante meses, cercada pela tropa e isolada do país. Assim aconteceu, em 1899, com a peste bubónica que infectando apenas 363 pessoas provocaria 132 mortos (36.36%)! O controlo (ou cordão) sanitário foi imposto pelo governo (alguns pensam num ajuste de contas com a cidade que fizera o 31 de Janeiro, outros que o Porto sofreu um revés económico de que nunca se recompôs).

Está para se compreender a razão porque a cidade das transformações cívicas, se mostrou tão contraditória e reaccionária na crise de 1899. De facto, enquanto uns apoiaram as medidas sanitárias propostas por Ricardo Jorge (e a epidemia pôde ser contida), outros portaram-se de forma absurda perante a gravidade da situação.

Ricardo Jorge seria ridicularizado como «inventor da peste» e alguma imprensa considerou-o impostor. Seria enforcado em desenhos colados nas montras, numa reunião dos sectores económicos, no Palácio da Bolsa, a quarentena foi rejeitada e Ricardo Jorge vilipendiado. Dois ou três clínicos apressaram-se a declarar a inexistência da bubónica na cidade, como absolutamente impossível.

Parece evidente que os motivos se prendiam com a gravíssima crise financeira e consequentes falências e desemprego daí advindos, provocadas no tecido industrial e comercial portuense. Mais do que a ignorância, em cidade de boas contas, o factor económico sobrepôs-se à racionalidade. Mas o Porto sobreviveu. Pagou caro e, reconhecendo a razão de Ricardo Jorge, passou a tomar a sério questões como abastecimento de água, saneamento e habitação.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.

 
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