DA IMPRENSA

Há duas coisas que rejeito. Uma é que me contem ou enviem mails com anedotas de alentejanos, outra é que os ditos mails contenham jornais diários ou livros e até colecções de obras literárias.

As anedotas de alentejanos carregam a aleivosia de ridicularizar uma região duramente tratada (ou maltratada) ao longo de séculos. Povo e região admiráveis de carácter (basta ouvir o seu cante) e tradição cultural que resistiu à adversidade (ou emigrou) e nos legou um país único e diferente.

Quanto à pirataria informática de jornais e livros, é herdeira dos tempos em que alguns (nem sequer pobres ou desempregados) liam os periódicos nos cafés mediante o pagamento de uma taxa. Para pouparem, num acto amplamente praticado. Não admira: há dias, na T.V., ouvi alguém dizer que só tinha lido dois livros em toda a vida!

Este assunto diz-me muito pois comecei a editar o primeiro jornal (chamado “Revista Desportiva”) aos 11 ou 12 anos. Era semanal e fabricado à mão, em papel costaneira. Desde aí e até ao JN, não têm conta os sítios por onde andei. Desde os primeiros artigos (sobre educação) no saudoso “Mar Alto”, da Figueira da Foz, até Viana do Castelo, Castelo de Vide, Taveiro, Lisboa, Gaia, Póvoa, Aveiro. E por aí fora. A imprensa foi a minha escola de escrita.

Por isso considero que, neste tempo de sobressaltos, a construção da nossa capacidade de perspectivar o futuro passa pela sobrevivência de uma imprensa à altura dos desafios que enfrentamos. Estranhamente, fala-se pouco da importância do relançamento deste elemento fundamental da nossa vida colectiva. E da própria democracia.

©helderpacheco2020

~ por Helder Pacheco em 2020-04-28.

 
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